As rédeas que me levam

Trabalho há 20 anos no mesmo emprego. Nos Correios. Eu tinha acabado de me formar em fisioterapia e não conseguia emprego de jeito nenhum. Comecei a estudar para concurso, a princípio visando minha área, mas edital mal abria, e quando abria as vagas eram poucas e a concorrência muita. Então comecei a atirar para todos os lados. Concursos de ensino médio mesmo, setor administrativo. E acabei passando nos Correios na vaga de agente, vulgo atendente. Foi uma grande alegria ter passado sabe, uma vitória mesmo. A família comemorou muito, liguei para os amigos contando. A vida, momentaneamente, parecia ter se tornado mais fácil. Mais reta. Garantida. Isso, até eu ser convocado para começar. Trabalho mecânico. Repetitivo. Chato. Muito chato. A agência fica bem no centro. Atendia por hora umas 20 pessoas. Logo no meio da manhã a cabeça já começava a falhar. Lia 4 e digitava 8. No lugar de Governador escrevia Comendador… E assim vai. É pegar a correspondência, pesar, lançar no sistema, receber, dar o troco. Próximo por favor! Compulsivamente isso. Logo pensei que o problema fosse eu. Meus colegas gostavam. Emprego tranquilo diziam. Fácil. É só ter atenção diziam. E sanidade… Aquilo não era nada do que eu sonhava para minha vida profissional, não era a minha satisfação pessoal. Foi difícil se deparar com isso. Mas isso foi o começo, logo o desespero inicial passou e eu fui me acostumando. Acomodando talvez. O emprego pagava minhas contas, eu tinha as vantagens de funcionário público, o prestígio de ser concursado. E a vida foi seguindo. Ou passando.

Aos 25 casei, minha namorada engravidou, a gente não pensou muito não, já foi providenciando o casório. Tudo foi muito rápido, pelo menos hoje parece, talvez pela correria daquela rotina; era trabalhar o dia inteiro, cuidar da criança à noite, minha mulher logo voltou a trabalhar, dividíamos as tarefas da casa. Depois de alguns anos o nosso caçula nasceu e novamente recomeçou toda a tribulação. Agora eram duas crianças pequenas. Ter filho é uma total reviravolta na vida. Tudo muda, as prioridades, os pensamentos, o tempo. Quando dei por mim, eu estava casado há anos e com uma família feita. Uma vida feita.

Eu e minha mulher nos damos bem, nunca fomos de grandes atritos, acho que nem dá tempo para isso. Mas fomo nos distanciando. Há muito tempo. Pelo cansaço de nossos dias talvez, a falta de cuidado pelo outro, interesse pelo outro. Essas armadilhas do conviver. Também hoje me questiono se não fui um pai ausente. Sempre me preocupei em garantir a segurança financeira de minha família, mas isso não é tudo. Chego cansado do trabalho, quero sossego, vou assistir um pouco, durmo cedo. Nunca fui de conversar muito com os meninos, levar pra passear… Hoje sinto meus filhos distantes, e me sinto culpado. Como também me sinto culpado por este vazio que vez em outra surge. Um vazio no estômago, uma ânsia. Um nó na garganta. Desespero. Vontade de correr, não pra frente mas pra trás. Recuperar algo, consertar algo. Talvez impedir. Mas como tudo, isso logo passa. E a gente continua.

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