Auto-terapia

Soundtrack: It Moves Through All Things (The Living Sleep)

Sou uma pessoa extremamente nervosa, ansiosa, preocupada, estressada, inquieta. Redundante tal descrição. Sou perturbada em síntese. Como se houvesse uma sirene dentro de mim. Um alarme. Algo está errado. Urgentemente errado. E não, não é uma fase, um dia sobrecarregado, uma semana ruim. Sou assim desde que me conheço por mim. Na infância eu era “a criança difícil”, que só chorava, gritava, confrontava. Desde que nasci assim já era, meu pai conta que era impossível não me reconhecer no berçário, pois eu era o único bebê que só chorava, interruptamente chorava e berrava.

Nenhuma característica é totalmente ruim ou boa, mas sim uma dupla face, dependendo da situação e do ponto de vista. É claro que toda esta inquietação me beneficia em muitos aspectos, e me soterra em tantos outros. Logo aos 8 anos comecei a desenvolver gastrite nervosa. Os pediatras me tratavam com remédio para verminose pois achavam muito difícil uma criança desenvolver gastrite. A dor era tanta que, quando tinha uma crise na escola, eu precisava deitar no chão do banheiro para suportar. Depois veio a dermatite alérgica, psicossomática também, bolhas que surgiam em todo o corpo e queimavam, coçando insanamente, formando feridas que mais pareciam queimaduras. Mas nada se compara às crises de enxaqueca. Nada. É lógico que nesta mesma época, aos terríveis 8 anos, período que também vivia um agudo quadro familiar, graves distúrbios mentais vieram. Síndrome do pânico e o tão cruel TOC (Transtorno Compulsivo Obsessivo) o qual levou, consequentemente, à psicose. Lembro de algum médico ou psicólogo dizendo à minha mãe que se naquela idade eu tinha desenvolvido tais distúrbios, que com grande certeza estes me acompanhariam para o resto da vida. Talvez em partes isso seja verdade. Pois cada dia é uma luta. Mas, para quem não é?

Toda a minha adolescência se resumiu em um longo processo de  recuperação de uma infância traumatizada e suas algemas. Definitivamente foi a arte que me salvou, como ainda me salva. Mais especificamente aos 14 anos, quando comecei a dar aulas de dança em ONGs de assistência social. Isso foi uma ponte. Um choque de realidade transformador. Não, eu não tinha problema. Aquelas crianças e adolescentes sim, eu não. Foi uma tamanha cura as experiências que tive trabalhando com estes jovens tão carentes, como sentar-me com um deles, ouvir um desabafo e chorar junto, aos soluços, sem ter muito o que dizer ou precisar dizer. Porque às vezes palavras são inúteis. Porque aquela dor era também minha.

Permaneci trabalhando no meio social até aos 20 anos. Acredito que esta densa experiência durante grande parte da minha adolescência me lapidara totalmente. Isso fez despertar uma humanidade muito forte em mim. Humanidade mesmo, no sentido que a palavra se propõe a significar: compaixão, empatia, altruísmo, afeto.

O episódio mais forte desta época foi aos 17 anos, quando sai de casa. Isso foi o divisor de águas. Foi o que afundou e ressuscitou tudo. Logo depois, aos 18 anos, fui para Inglaterra trabalhar de babá. Mas acabei na Espanha. Deu tudo errado, e tudo milagrosamente certo. Foi então que descobri como linhas tortas nos direcionam. E transformam. Aos 20 anos fui para São Paulo. E novamente, tudo desabou. Muito mais do que isso. Meu eu, minha personalidade, minha alma. Tudo morreu de muitas maneiras para renascer de tantas outras. São Paulo foi a metamorfose, a passagem. Anos vorazes. Difícil falar de São Paulo sem me emocionar. Difícil. Mas as mudanças na selva de concreto não foram suficientes. Teve que vir o acidente de carro. Aquela linha da vida cortada na palma de minha mão. Aquele estigma. Literal renascimento. Encarar a morte nos faz descobrir a urgência de viver. Sagaz ironia. Depois houve o limbo de 1 ano de volta à Araraquara. Reconstituição. E houve por fim outro recomeço em Curitiba. Redenção. Mas sinto que só há pouquíssimo tempo descobri, que o recomeço precisaria ser diário.

Acho que minhas feridas foram tantas, que a necrose foi inevitável. Tive que me desfazer para poder me recriar incontáveis vezes nestes quase 28 anos. E quantas vezes mais será preciso? Todos os dias sinto que partes apodrecidas me restam, sempre restarão, é preciso de muita força para arrancá-las, com as próprias mãos, para se despir do que não mais serve e atrofia. O mais difícil, obviamente, é o turbilhão que me habita. Esse grito que não silencia. Esses desespero que não se acalma. Essa memória que queima. Mas eu não vou desistir. Não vou me entregar. Todo dia é um novo desafio, uma nova  necessidade de superação. São coisas pequenas as grandiosas, as que aliviam e curam. Minha música, meu desabafo escrito com tantas lágrimas exorcizadas, relaxamentos diários ao som de algum CD clichê de meditação. Essa busca incessante pela paz. Essa persistência inabalável pela evolução. Esta auto-terapia sem fim.

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