Como Eles se Tornam Monstros

No último sábado, dia 21 de maio, dia em que a jovem do RJ sofreu o estupro coletivo por mais de 30 homens que chocou o país, outra atrocidade do cunho foi registrada: uma menina de 17 anos também foi dopada e estuprada por cinco homens no interior do Piauí. Foi encontrada desacordada e amordaçada com sua própria calcinha em uma obra abandonada. E quantos outros casos não divulgado ocorreram neste dia, em um país onde um estupro é notificado a cada 11 minutos?

Crimes de estupro coletivo envolvendo quatro, cinco homens já não são novidade, infelizmente, e por isso não chocam tanto. Já 30 homens envolvidos não é notícia usual no Brasil, diferente do que procede em outros países de maior problematização social, como a Índia e a referência África do Sul, país com o maior índice de estupro mundial. Só que a atrocidade brasileira não ocorreu em qualquer lugar, mas sim no violento Morro do Barão, comunidade da zona Oeste do RJ, local consumido pelo tráfico e a guerra cível tão constante entre traficantes e policiais. Há toda uma conjuntura nesta comunidade que a aproxima aos tão deturpados cenários sócias da Índia ou da África. Na África, por exemplo, o estupro coletivo em muitos países é um ataque de guerra. Coisa normal. Enraizada. Importante ponderar que essas comunidades do RJ vivem em uma literal guerra, e a flagelação social proveniente desta é imensurável. Estes locais possuem leis e justiça própria, as quais são embasadas em total selvageria. Dívida de droga é resolvida não só com morte, mas com cruel tortura para que sirva de exemplo. Crianças já são envolvidas com o tráfico e antes mesmo de entrar na puberdade já manejam armas. Um revólver nesta realidade é objeto comum. O pai tem, o irmão tem, tiros diariamente, mortes diariamente. A violência afinal se torna um lugar-comum. A resultante disso é um fatal processo de desumanização e animalização.

Novembro do ano passado foi detido no interior do Macapá uma agricultor acusado de estuprar suas cinco filhas, de 5, 6, 10, 12 e 14 anos. Quando foi preso ele confessou o crime dizendo: “Era rapidinho, não fazia mal não, era rapidinho”. Na cabeça deste homem o abuso sexual de suas filhas era normal. Se estava com vontade de sexo e se tinham 5 meninas em casa, qual o problema? No exato contexto em que um animal não distingue laço sanguíneo na hora do coito. A racionalidade é sucumbida pelo extinto devido à uma inexistência de moralidades e valores. Neste caso do Macapá, é muito provável que esse agressor também tenha sido abusado sexualmente em sua infância, havendo assim a normalização do abuso, mesmo que em níveis inconscientes. A civilidade se limita no convívio, não apenas na localidade. Concepções de certo ou errado são estruturadas em sumo pelo meio, seja este uma família ou uma comunidade. Um individuo que cresceu em um ambiente violente, dificilmente não acarretará esta violência para dentro de si, pois esta é o seu parâmetro, o dito lugar-comum.

A desigualdade social está totalmente vinculada à cultura do estupro. O abuso sexual pode não ocorre apenas em zonas periféricas, mas a grande maioria ocorre. Analisando toda a estrutura e funcionamento das comunidades do RJ isso se torna lógico. A própria perpetuação da pobreza entra como elemento chave. A diretora da Fundação Casa, Berenice Gianella, em entrevista para a revista Brasileiros expõe como a miséria e as estreitas possibilidades de melhoria sentenciam à marginalização social: “O menino sai daqui e volta para a comunidade que ele morava, com o pai preso, a mãe presa… Nós tivemos um caso nessa semana em que o menino estava no regime de semiliberdade e pediu ao diretor da unidade para voltar para a unidade sábado à noite. O diretor perguntou: “Mas por que você quer voltar hoje?” E o menino respondeu: “É que na minha casa não tem cama para dormir e aqui tem”. A equipe da unidade foi fazer uma visita e viu que a mãe mora numa casa com quatro camas para dez pessoas. Eles dormem em revezamento nas camas. O menino foi visitar a família no sábado e voltou à noite para dormir na cama da Fundação. É um jovem internado por tráfico de drogas. Por que será que ele entrou no crime? Será que esse jovem, por melhor que a gente atenda, não vai voltar a praticar delinquências?”

O tráfico nestas comunidades acabou se tornando meio de sobrevivência em um país onde o salário mínimo não supri as necessidades básicas de um indivíduo. A ilegalidade da prática pede força bélica. A luta pelo poder local demanda alta violência. Inevitavelmente, as mulheres são vitimadas por esta violência. Difícil colocar limites quando se tem uma arma na mão. Não é a toa que a jovem da atual barbárie do RJ narrou ter acordado em uma sala com mais de 30 homens portando fuzis.

As soluções não são simples perante tantas complexidades causais. Na priori, nosso país possui uma carência exorbitante de serviços públicos eficazes e de políticas sociais que atendam à população mais necessitada, medidas vitais para uma melhoria social. Pois degradação social sempre resulta em violência. A tragédia do Morro do Barão sintetiza isso. A humanidade de muitos já perdemos, resta lutar por mudanças para salvar os que virão.

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