Porta-retrato

Revelei fotos antigas de uma festa de aniversário perdida no tempo. Você abraçava o seu pai naturalmente, verdadeiramente. Havia uma alegria serena nos olhos do meu vó. Uma pureza naquela pele pálida e cansada. As fotos emolduradas empoleiradas na mesa a esperam chegar. Eu quis escrever um bilhete, tardei em fazer achando que poderia soar um tanto mórbido, mas agora que escrevi achei leve, como asas: Todos os dias você irá ver este porta-retrato, e gostaria que a lembrança do seu pai te lembrasse de como a vida é uma passagem. Os problemas, as dores, as alegrias, as pessoas quem amamos. Tudo passa, tudo é sopro, correnteza sem fim. Mas nos esquecemos disso a todo momento, e ao invés de navegarmos, afogamos-nos paralisados lamentando a terra firme que não chega, e nunca chegará. Em vez de aproveitarmos o tempo fugaz com aqueles que amamos, deixamos que pequenas diferenças e deslizes corroa este momento e o transforme em problema, quando poderia ser solução. E para que isso? Gostaria que você se perguntasse quando olhasse esta foto. Para quê isso? Se tudo, tudo, tudo passa. E não volta. Será que amanhã estaremos aqui? Até quando teremos uns aos outros? Nossa família, esse nosso ser continuado em outro alguém. Tudo torna-se muito pequeno pensando assim. Somos muito pequenos. Partículas carregadas pelo vento. Estamos indo a cada dia. Sumindo aos poucos. Desperdiçar a vida que resta é uma loucura. Quando penso no vó eu lembro disso, sinto vergonha de minhas entregas, e sinto força também. Força para fazer o melhor, viver o melhor, amar melhor. Amar enquanto ainda é tempo. Queria que esta foto lhe dissesse isso.

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