28 de Julho

Hoje faz muito frio aqui. Isso deixa o corpo mole. Quieto. Ando lendo um livro sobre Raja yoga, fala muito sobre completude e afirmação. Ando querendo me desconstruir. Nos últimos anos atei-me à uma rotina metódica e sintética, privando-me do hoje para alcançar o amanhã. Julho sempre me alcança forte. Esse vento gélido é pesado, cortante. Concluo que o caminho só vale a pena se for para caminhar. Ao contrário, se caminhamos para chegar, secamos. Como atravessar um deserto em busca de um oásis. É desespero. Fuga. É muita coisa, mas não é momento. Não é vida. A fugacidade e fragilidade do tempo andam me cutucando os olhos. A mãe de um amigo faleceu ontem, há poucas semanas conversamos por telefone, ele com entusiasmo me contava seus planos de levar sua mãe para a cidade que se mudara. Tudo parece tão pequeno hoje. Insignificante. Um detalhe. O vento que move as árvores parece muito maior. Decidi fazer tudo diferente, para isso tive que interromper tudo que fazia, desocupar para ocupar. Vazio. Ando chorando muito, não de tristeza, mas de comoção. Uma percepção afiada, que rasga. Completude é sair de si para olhar para fora, estar de fora para olhar para si. Hoje eu me sinto sozinha num barco em mar aberto. Distante. Só minha. Sem âncoras. Toda superficialidade, vaidade, todo aquele continente limitado, isolado diante de si, para trás. Todas aquelas necessidades que não me pertencem, aqueles julgamentos que não me competem. Para trás.

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