Costurar os pés com as mãos

Neste sábado passei o dia alinhavando roupas à mão. Tinha apresentação de dança à noite e algumas peças de meu figurino estavam largas, e sem máquina de costura e com pouco tempo, precisei arrumar na agulha mesmo. Isso me trouxe a lembrança de minha infância, de minha avó me ensinando a dar pontos à mão, pequenos truques para garantir uma costura firme que não desmanche. É muito analógico este processo, a princípio parece a coisa mais demorada do mundo unir dois longos pedaços de pano através daquela mísera junção de linha deixada pelo rastro da agulha entre os dedos. É ponto por ponto, milímetros imperceptíveis que vão formando centímetros e depois metros. Paulatinamente. Continuamente. Um caminho. E tudo se inicia com aquele primeiro minúsculo ponto. Quando percebo toda uma reta já foi emendada e a peça já encontra-se feita. Como acontece com qualquer outro percurso ou construção. Mas a maioria não consegue costurar os pés com as mãos. Querem caminho feito, disponível, imediato. E só se satisfazendo com o pronto, nada constroem, e assim, nunca se satisfazem.

O que mais vejo são pessoas amarguradas com o seu presente por este não ser como elas gostariam, mas há uma distorção aí, talvez até um segredo; a amargura não vem da insatisfação com o hoje, mas da improdutividade pessoal com este, e assim, com a desesperança que o amanhã aparenta. Não há construção, não há avanço. Há uma vida que se vive sem querer viver, distraindo-se aqui ou ali à medida do possível, ocupando o tempo que não se consegue alcançar. Para muitos o primeiro passo parece tão insignificante, que lhes é preferível a amplitude do nada. Preferem viver na fantasia onde tudo seria possível algum dia do que na realidade, onde o possível ainda é pouco e insuficiente. Essa sentença quase sempre resulta em infelicidade e vazio. Porque viver é costurar milhas com as mãos. É passo por passo, ponto por ponto. A grande satisfação vem daí, não da obra pronta, mas da construção. Sensação de dever feito,  projeto traçado, vida vivida. A sobrevivência não basta. A distração cansa. Seguir a própria essência é a única salvação. Fazer algo maior, ser maior. Para nós e principalmente para os nossos. Porque só é possível fazer alguém feliz se formos felizes. E essa tal felicidade vem do semear, do fazer, do percorrer; do viver. Verdadeiramente. Deliberadamente. Aqui e agora.

 

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