28 anos

O símbolo do signo de Virgem em seu mito é narrado como uma donzela, a princesa Astréia, filha do poderoso Saturno, senhor do Tempo e da Ordem. Seu reino era um paraíso mágico, todos viviam em harmonia em um vale de natureza exuberante com rios feitos de leite e mel. Até o dia que a semente do ódio foi plantada no coração dos homens. A ganância formou a guerra. A guerra devastou tudo. Os homens tornaram-se infelizes, a natureza secou e os rios viraram lama fétida. Então Astréia se pôs a chorar. Chorou incansavelmente. Não aceitava aquela realidade, não se conformava. E sem poder mudar nada, chorava. Chorou tanto que suas lágrimas inundaram o reino, afogando tudo, levando tudo, para que assim, um novo mundo pudesse renascer. Saturno retribuiu a filha levando-a aos céus, eternizando-a como signo do Zodíaco, representante de Plutão, símbolo da perfeição perdida e jamais esquecida.

Neste aniversário me lembrei forte dessa bonito lenda que representa este dia. Acho que nunca me senti tão virginiana, tão assim empenhada na busca de meu paraíso perdido. Meus aniversários costumam ser dias tomados por um turbilhão de reflexões, reavaliações e aspirações. Neste foi um tanto diferente. Apenas segui a minha rotina, sem muito pensar. Não havia necessidade. Pois eu simplesmente estava em paz com o meu presente, construindo hoje o paraíso que almejo estar amanhã. É claro que sempre podemos aprimorar, fazer melhor, ser melhor. A minha perfeição de Astréia me lembra disso sempre. Nunca fiz parte do grupo dos acomodados, conformados com a limitação própria e do mundo. E não vejo isso como frenético desassossego, mas como constante engajamento e até deslumbramento. Desdobramento. Em todo aniversário me lembro de uma cena de minha infância: eu muito criança na frente de um santinho jurando que a cada aniversário eu me tornaria uma pessoa melhor. Essa programação mental foi forte. Desde então, deste minha infância, é assim que me sinto, é assim que me proponho. Um ano acima do outro. Melhor do que o outro. Acredito que o tempo seja isso, amadurecimento e desenvolvimento. Envelhecer para mim sempre foi sinônimo de possibilidade e aprimoramento. Costumo me imaginar com 40, 50, 60, 80 anos. Uma velhinha de longos cabelos brancos e incontáveis histórias. Profundas rugas e conhecimentos. A juventude nunca me fez o feitio. Acho bonito mesmo o vivido, aquele acúmulo de coisas que atravessaram o tempo. Aquela rocha bruta que só conseguiu virar cristal pelo desgaste dos anos. Aquele grão de areia machucando a ostra que só depois de muito tempo transformou-se em pérola. Acredito com total veemência que o tempo me tornará um ser melhor e que isso me tornará capaz de transformar o mundo a minha volta. E só este acreditar já é um magnetismo, uma imantação. Um destino traçado pelas próprias mãos. Por isso envelhecer não é um medo, mas uma realização.

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