Enquanto ainda é tempo

Em 2012 sofri um grave acidente de carro, fiquei alguns dias entre a vida e a morte e um mês internada na UTI. Quando tive alta, algo que muito me pasmou foi a repercussão de meu acidente e a aproximação de meus “conhecidos”. Sim, conhecidos. Não amigos, não íntimos, apenas conhecidos. Aquelas pessoas com quem estudei há 10 anos atrás e nunca mais vi ou conversei, aqueles parentes que se eu trombar hoje na rua se quer irei reconhecer. Isso me revoltou um pouco, o auê que fizeram na minha página do facebook, as visitas aleatórias que recebi depois, as mensagens desprovidas de contexto. Não consegui encarar como demonstração de carinho ou preocupação ou nada de nobre. Eu sei que essas pessoas tiveram boa intenção, mas vejo isso muito mais como sensacionalismo. Não vejo lógica em alguém ficar mais de uma década sem manter contato, sem saber afinal se estou viva, e quando se informa que estou quase morta, se aproxima. E por fim, todos esses sumiram após a minha recuperação. Se eu tivesse morrido, o que mudaria? Nada. Para eles nada. Uma comoção anacrônica e irônica. A vida requer dramatização, não a morte.

O grave mesmo é o outro extremo. É nos distanciarmos daqueles que realmente gostamos e nos importamos, assim quase sem querer, por um deslize, uma postergação, inversão de prioridades. É a rotina frenética, é achar que sempre haverá tempo para um encontro. Mas muitas vezes não há. Porque já é tarde demais.

Hoje o irmão caçula de meu pai teve um infarto. Passou o dia em uma operação arriscada para tentar se salvar. Ainda não sei como está. E estou com medo de procurar saber. Também não tenho contato algum com esse tio. Faz muito tempo que meu pai não o vê. Muito mesmo. Não por qualquer desentendimento, mas por qualquer insignificante motivo que foi crescendo e se transformando em oblívio. Meu pai está muito triste, obviamente. Mas eu consigo sentir que a tristeza maior seja pelo tempo perdido. A gente nunca pensa que isso pode acontecer. Mas sempre pode. Meu pai teve tantas chances de marcar um encontro com o irmão, tomar uma cerveja, conversar sobre a vida que ainda viviam. Agora ele já não sabe se terá essa chance. Esse tempo. Essa vida.

A vida requer valorização, não a morte.

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