Uma história Portuguesa

Nesta terça-feira fui ao Consulado de Portugal buscar a minha nacionalidade. Esta era a última parte do processo de cidadania de minha família, o qual iniciei há exatamente 10 anos atrás, em 2006, com 18 anos de idade. Demorou tanto assim por uma por uma relutância absurda de minha avó, a filha dos portugueses. Ela se recusou veemente a mudar os nomes de seus pais do seu RG, após o processo de retificação jurídica destes. E foi exatamente a minha avó quem me ajudou a encontrar o paradeiro dos documentos deles em Portugal, processo que foi muito difícil exatamente pela incompatibilidade dos dados originais com os documentos brasileiros. Situação muito usual. E sem a alteração do seu RG, era totalmente impossível continuar. Eu insisti de todas as maneiras, mas ela foi totalmente intransigente. Assim, o processo ficou paralisado, até ano passado, quando uma voz me infiltrou a mente: tente novamente. E eu tentei. E minha avó cedeu. Então, por fim, concretizei a cidadania de toda a minha família materna, finalizando aqui, nesta semana, com a minha nacionalidade em mãos.

Estou feliz, é claro, mas o momento de agora, a dita chegada, o tal desfecho; nada disso foi o mais importante. Mas sim o percurso, a imensa jornada em busca desta cidadania que mudou a minha vida de tantas maneiras. Como quando fui à Portugal em 2008 buscar as certidões de meus bisavôs, com uma mochila nas costas e todos os sonhos do mundo nos olhos. Esta foi uma das experiências mais fortes de minha vida. Também quando o processo se interrompeu e a minha frustração foi insustentável, foi aí que coloquei outra mochila sobre os ombros, mas desta vez não voltei mais. Fui para São Paulo, onde morei por 4 anos. Fui fugir de minhas dores, reconstruir minhas ruínas. São Paulo foi a morte e o renascimento de todas as minhas partes. A experiência mais profunda de minha vida. Por isso digo, sem exageros, que a busca deste pedaço de plástico que agora tenho em mãos, mudou tudo. Tudo. E isso nada tem a ver com a sua conquista.

Já a tamanha interrupção que ocorreu com a cidadania, isso me ensinou a acreditar e a aceitar que nossas grandes vontades são limitadas por grandes fatalidades, intransponíveis no momento, mas circundáveis se persistidas. Tudo tem o seu tempo, esta é a frase que permeia toda esta jornada, assim como tudo tem o seu motivo. Uma mescla de serenidade e persistência. Um caminho do meio. Uma direção que levou a tantas outras. E moldou uma vida.

O maior valor de ter este documento em mãos, após uma década, é me lembrar de tudo isso, de toda esta voragem. Efeito Borboleta. Ainda parece mentira sabe, quase um sonho que ainda durmo. É tão louco pensar que depois de tanto tempo e tanto tudo, o princípio se transformou fim. Quando eu menos esperava.

Este é o final de uma grande história e o começo de outra muito maior.

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