Contratos

Suspeito que antes de começar, deveríamos fazer contratos. Para acabar com essa imposição subentendida de eternidade. Suspeito que é isso que desgasta, ilude, sufoca. Vamos ponderar um tempo assim cabível, contável, possível. Mas isso soa ridículo. Sim, soa. Mas ainda menos ridículo do que essa cobrança insustentável por continuação. Você me diz que não, que quando a gente ama o tempo não existe. E assim queremos acreditar no para sempre. Acho bonito isso, mas do lado de cá, no papel. Vivendo nunca é tão linear. Por isso eu te sugiro, vamos fazer contratos diários. Soa mais saudável. Porque arrisco que seja essa nossa mania absurda de querer controlar o tempo, principalmente o alheio, que nos esgote. Essa distorção de achar que amor só é amor se for inabalável, interminável. Como a ficção mostra. Já na realidade, é essa demanda por perfeição que deforma. Essa possessão por constância. Tão incoerente. Porque a única certeza é a mudança. Por isso promessas já não me soam românticas. Mas claustrofóbicas. Vamos combinar de ser feliz por hoje, por esta semana, até o fim do mês, se der. E depois a gente vai adaptando, transformando. Renovando. E quem sabe assim, preocupados com o trajeto e não com o final, a gente não caminhe por mais tempo. Sem nos cansar. Suspeito que só sendo livres é que conseguiremos nos manter atados. Quem sabe.

 

Sleeping with the Ghosts – Placebo

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