Possibilidades

O que não depende de mim

Eu especulo você. Como um desejo qualquer. Analiso as possibilidades. Sonho alto. Faço cena. Monto um roteiro. Transformo você em personagem. Aí dou um riso nervoso. Achando graça, achando ridículo, achando doído. Aí relaxo, pesando que mal não faz não. Só tô especulando. Imaginando. Averiguando as possibilidades daquilo que não depende de mim. Como quem vai viajar pra um lugar novo e fica assim, imaginando, idealizando como gostaria que fosse. Eu costumo crucificar esta palavra, idealização, quando abordo circunstâncias que não cabem a mim. Assim, eu me crucifico muitíssimo idealizando você. Essa é uma parte de mim. Há a outra parte, aquela que diz que essa reprovação é pura vaidade. Uma necessidade de controle. Um medo de rejeição. Aí eu me acalmo, lembrando que toda conquista é um encontro, acima de tudo. Porque nada depende só da gente. Algumas coisas dependem mais, outras menos, mas tudo no final é coesão; encontro de forças que convergem ou divergem.

Eu fico aqui imaginando como você deve estar hoje, depois de quase uma década. Acredito que esteja melhor, assim como acredito que eu esteja. Então especulo: será que nós, hoje, juntos, não seríamos melhores? Melhores do que fomos. E se fomos felizes outrora, num período tão juvenil e instável, o que dirá de agora? Poderíamos ser tanto. Poderíamos. Eu especulo. É ai que crio esse teatro dentro de mim. É ai que te projeto. E uma mistura de repreensão com inspiração me invade. É intuição? É ilusão? O que você significa, hoje, dentro de mim?

Eu não sei direito o que você pensa. Você, tão fechado. Mas vou acabar sabendo, naturalmente, se não na sua voz, na voz do tempo. Porque se não for encontro, será ausência. E  pensando assim me sinto leve. Talvez a gente não tenha mais nada a ver. Talvez eu nunca mais te verei de novo, mesmo morando no mesmo país, na mesma cidade que você; porque o seu caminho pode não pertencer mais ao meu. Como afinal há tanto tempo não pertence. Estar me mudando para perto de você, a maior paixão que já tive, é inevitavelmente atormentador. É por isso que faço tanta cena e alimento tanta idealização. Mas, ainda assim, é leve, como tudo aquilo que não está em minhas mãos; como expectativas jogadas ao vento.

Eu fico aqui imaginando que historia bonita não seria essa, da gente se encontrando depois de tanto tempo, em outro país, em outros corpos, em outra dimensão. Uma possibilidade, apenas. Entre tantas outras.

 

Letting The Cables Sleep – Bush

 

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