Sem Lugar

Você estava com uma menina em um camarim. Era uma noite cultural na cidade, muita gente na rua, música em todo lugar. Eu não sabia direito o que estava acontecendo, tinha acabado de chegar àquela cidade. Eu te observava de longe, você não me enxergava, como há tempos não me enxerga. Eu sentia ciúmes da menina ao seu lado, era cantora e se preparava para se apresentar. Você parecia muito orgulhoso dela, feliz ao seu lado. Eu me sentia traída, como se aquele fosse o meu lugar. Naquele momento, eu me encontrava escondida em um quarto escuro e cheio de tralha antiga de palco. Vocês estavam no camarim à frente, iluminado, limpo, alegre. De repente eu me esbarro em um amontoado de holofotes e o som de vidro espatifado ensurdece o ambiente.  Vocês dois se assustam e se dirigem ao quarto onde me encontro. E sou descoberta. Eu assustada, cortada, envergonhada, saio correndo. Vocês me seguem. Já estou na rua quando sinto a sua mão brusca no meu ombro. Eu me viro e vejo você, ao lado dela, segurando uma grande mala de viagem, vazia e detonada. A mala é minha. Você hostilmente a joga em minha direção e se vai. Eu fico ali por um tempo, no meio daquela multidão, anônima, sentada na calçada ao lado de uma mala grande, vazia e rasgada. Um mendigo. Sem lugar. Mas não estou triste, se quer com raiva, mas sim aliviada, por finalmente compreender que você, não é o meu lugar.

 

Carry Home – Mark Lanegan

Anúncios