3: Porta Afora

Últimos três meses no Brasil

Estamos em agosto. Como uma vida pode mudar tanto em 8 meses?  Em janeiro desde ano começou esta densa jornada de mudança de país, só que naquele momento a própria mudança não existia. A princípio era só um trabalho voluntário no exterior, ideia que surgiu com o intuito de aproveitar melhor a minha estadia na Europa visitando minha irmã. E de repente tudo mudou: o destino, a duração, o propósito. E cada vez foi mudando mais e mais, atingido o ápice neste mês. Durante todo este ano eu permaneci em uma grande ambivalência em relação à mudança para Montreal. Por um lado eu acreditava fervorosamente que isso daria certo, mas por outro parecia um tiro no escuro. E assim eu continuei a minha vida no Brasil como se (quase) nada estivesse acontecendo. Neste mês as coisas radicalmente mudaram. E eu precisei, de fato, assumir essa escolha. E com isso inciou-se a palpável dissolução da minha vida atual. Comecei a fechar portas. E portas grandes o bastante como a minha faculdade aqui. Ter saído da faculdade por causa da mudança foi um divisor de águas. Eu não ponderava fazer isso. Mesmo sabendo que um ano de graduação não teria serventia lá fora, eu não cogitei antes, em nenhum momento, sair da faculdade antes do término do ano letivo. A faculdade me era uma segurança. Uma certeza. Mas não se pode trilhar dois caminhos ao mesmo tempo. A própria data do final do semestre acadêmico não coincidia com a do início do trabalho em Montreal. Mas eu achei que daria um jeito. Qualquer jeito. Mas não foi possível, por inúmeros motivos. E assim, com a saída da faculdade, veio o peso da escolha que eu fizera. O sacrifício. O medo diante do caminho incerto que me atiro. Eu quase pirei nesse agosto.  E como toda loucura, isso me trouxe um intenso processo de lucidez e autoconhecimento. Montreal surge na minha vida como uma mão externa que me desfaz e me remonta. E agora, mais do que nunca, eu enxergo que antes de tudo existiu a minha voz, chamando por isso.

Neste mês iniciou-se o meu processo de contratação dentro do programa de trabalho no Canadá. Eu estava muito insegura em relação a isso. A aceitação no programa garante uma obtenção de vaga, mas isso me parecia muito teórico e nada certo, já que a minha contração depende de um empregador. Isso inclui um processo de “apadrinhamento de visto”. O empregador torna-se responsável pela minha estadia legal no Canadá. Esse é um programa de trabalho para estrangeiros na área social em ONGs. Posso receber apenas ajuda para moradia e alimentação, não um salário. Mas diferente de um voluntariado, eu estou sendo contratada como uma funcionária com carga horária “full-time”, e assim, entrando no país com objetivo laboral através de um visto de trabalho. Não é difícil imaginar o furacão que está dentro da minha cabeça diante disso. E os receios. Algo muito bom nesse mês foi ter recebido uma proposta de trabalho dentro das minhas expectativas. Foi a segunda que recebi. A primeira eu não aceitei, e me achei louca por isso, com receio que não houvesse outra. E a segunda veio como sob medida. E com isso comprei as passagens. Ida para Montreal. Volta para Portugal. Na teoria, porque na prática até isso mudou.

Ainda há um enorme caminho até chegar o dia do embarque. Possuo dois grandes objetivos que me guiam nessa jornada: continuar os estudos no exterior e conseguir uma renda tocando. Vou começar tocando na rua. E isso será um desafio pessoal imenso. Igualmente os estudos. Irei tentar estudar em Montreal agora. Isso não fazia parte dos planos. E nem sei como posso viabilizar isso no momento. Mas vou tentar, e essa tentativa acarreta muitos preparativos nesta pré-viagem, como tradução juramentada e proficiência. É trabalhoso e pouco certo, mas não me faz sentido ficar todo esse tempo no Canadá de braços cruzados em relação à minha formação acadêmica. E se não der certo, então eu sigo para Portugal, onde possuo cidadania. E a jornada continua. Como sempre deve continuar.

Revendo “O Senhor dos Anéis” eu me deparei com uma frase que sempre me penetrou fundo: “É perigoso sair porta afora, ele costumava dizer. Você pisa na Estrada, e se não controlar os seus pés, não há como saber até onde pode ser levado

Hoje, nesse longo agosto, eu tento alcançar um equilíbrio entre a obstinação de querer controlar o caminho e a emoção de se aventurar, assim, sem saber direito para onde estou indo, e sem querer saber.

 

Garden – Pearl Jam

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