26 de Outubro

– 30 dias

A quiromancia ensina que os traços da mão esquerda não mudam, só o da direita. O destino muda. O livre arbítrio o faz mudar. Mas antes de tudo, há esse emaranhado de linhas que fincam. Determinam. Elas variam de composição, às vezes são de barbante, outras de aço.

Era novembro de 2012 e eu me preparava para deixar São Paulo. Tive um sonho forte antes de partir. No sonho eu acordava dentro do rio Tietê, boiando em cima de um colchão. A correnteza era forte e me levava. Eu tentava gritar, mas tudo parecia suficientemente longe. Minha voz era um som mudo. Era madrugada, a cidade calada. Uma calma me invadia, como se eu soubesse que nada podia fazer. Não dependia de mim. Parecia. Então eu deitei naquele colchão barco e fiquei, me deixando levar. Adormeci. Acordei assustada pelo forte som de água. A correnteza aumentara, o vento gelado cortava o meu rosto. Blocos de gelo surgiam na água. E começou a nevar. Eu estava longe. Muito longe.

Nunca passei tanto tempo olhando para a palma de minha mão como agora. Fico assim procurando a linha, a exata linha, que me trouxe até aqui. Ela existe? E se sim, pra onde continua?

Montreal me é um extremo de sensações. Uma segurança absurda me invade. Um desolamento absurdo me invade. E assim, os extremos se anulam. Contemplo, apenas. Como se algo maior e um tanto incontrolável me levasse, me guiasse. E eu, como criança frágil, consentisse. Pra onde vamos? Às vezes pergunto. Não há resposta.

 

Little Things – Bush

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