Mas ela não vai ficar aqui muito tempo

Minha principal função em meu trabalho aqui é visita domiciliar a idosos. No começo isso me assustou um pouco. Na verdade, eu não sabia exatamente o que faria aqui. Em todos os sentidos. Agora, após 1 mês de trabalho, a visita domiciliar é a minha parte favorita. Gosto de invadir vidas. Constato. Gosto da intimidade, dos detalhes escondidos. Dos porquês. Sinto-me útil nesta função, é claro, mas creio que mais do que gratificação, encontro uma espécie de alimento. Conteúdo. Outra função minha em meu trabalho é auxiliar em clubes para idosos mais autônomos. Decidi trocar alguns clubes por mais “clientes”. Nesta semana começo com mais dois idosos para visitas semanais. Ao todo ficarei com quatro. Quatro vidas. No meio da minha.

Magda é uma de minhas “clientes”, mas já combinamos que não mais a chamarei assim. É amizade, explica ela, não serviço. Porque pra mim você já é da família – todas vez ela me diz – “like my granddoughter”. Semana passada ela chamou um amigo para me conhecer. Conversamos um pouco, contei um pouco sobre mim, sobre meus porquês e procuras. E nessa semana, Magda me contou os comentários dele sobre a minha pessoa. Ele amou você! Disse: ela parece ser uma pessoa tão boa, mas ela não vai ficar aqui muito tempo. Essas palavras me penetraram fundo. Como um presságio. Não que eu tenha dúvidas, hoje, sobre isso. Mas ouvir de fora, é diferente.

Saí do Brasil especulando dois caminhos: continuar no Canadá e seguir para Portugal, onde tenho cidadania. Eu tinha meus motivos para tal divisão. Hoje, já não tenho dúvidas sobre a inviabilidade e as inúmeras desvantagens de continuar aqui, sobre tudo mediante à cidadania. Cidadania a qual me trouxe aqui, a propósito. Decidi que quero permanecer aqui apenas durante este ano. Meu contrato termina em julho. Tenho a possibilidade de renovar minha permissão de trabalho por mais 6 meses, no atual emprego ou em outro em Montreal, ou em outro em outra capital. Não sei direito o que fazer. Uma parte de mim queria ir para outro lugar, principalmente pela língua. O peso das duas línguas, entre todas as atividades diárias, anda me soterrando. Mas, há outra parte de mim, e arrisco que esta seja maior, que diz: fica. Até o final. Dá um sentido pra isso. Transforma esse peso em consistência. E depois, vá.

Quero viajar pelo Canadá também. O que começo a planejar é tentar um novo contrato para o começo de agosto, e assim ter 1 mês para viajar. No verão. Para as altas montanhas do oeste. E para o Alaska. Quero muito ir para o Alaska. Into the Wild. Porque essa Montreal tão cheia de tudo, me faz sentir falta do contrário.

Tem dias que me sinto totalmente desolada aqui, nessa língua que não alcanço, nessa solidão que não tampo. E as pessoas ainda me perguntam sobre o clima. Eu já nem lembro que é frio lá fora. Porque aqui dentro é muito mais.

 

I am the wolf – Mark Lanegan

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