A Cadeira / A Cadeia

Seria possível mobiliar uma casa inteira com móveis e utensílios achados sobre as calçadas de Montreal. Principalmente no McGill Ghetto, onde trabalho, pela alta volatilidade de estudante. Não consigo ver isso com muito bons olhos. Obviamente só abandonam o que não tem valor, ao contrário vende-se. Para mim é uma poluição lascada nas ruas. Mas, isso ajuda muita gente. Rapidamente tudo é resgatado e reutilizado. Já é cena cotidiana pessoas com uma cadeira nas mãos ou um colchão aos trapos nas costas pelas ruas. Ontem eu fui uma delas. Resgatei uma cadeira. Oscilei muito. Na verdade passei reto por ela, voltei pra casa, refleti, dei meia volta e fui buscá-la. Cadeira simples tipo de escola. Com os pés bem enferrujados. Fiquei incomodada. Não pela ferrugem, mas pela sua presença na minha cada, ocupando espaço. Rapidamente pensei: “Mais uma coisa pra eu me livrar quando me mudar.” Muita ansiedade? Talvez. Mas a corpo daquela cadeira pesou o meu chão.

Por que preciso de mais uma cadeira? A questão é que tenho duas cadeiras e dois bancos de tocar; um para o piano e outro pro violão. O do piano veio com o piano, já tinha o banquinho pro violão. Ai deixo uma cadeira na sala e outra no meu quarto pra colocar as roupas em cima, algo bem importante porque nem cama tenho, então, a cadeira no quarto é muito útil. Os banquinhos na sala não são confortáveis pra estudar comer na mesa e já que tenho uma escrivaninha também, fico arrastando toda hora a cadeira entre essa escrivaninha e a mesa. Por isso que queria afinal outra cadeira, pra ter duas na sala. Mas, qual o problema afinal de ter que mudar o lugar da cadeira dentro de um único cômodo? Foi essa pergunta que me pesou. A madrugada toda.

Devolvi a cadeira para a rua. Senti-me mal por me senti poluindo a calçada, mas tentei me consolar que rapidamente alguém a pegaria, e faria um melhor uso do que eu e minha vaidade.

Há poucos anos atrás estava eu aqui na vida fazendo coleções e coleções de objetos: Cds, Dvds, livros, decoração, roupas, sapatos. Hoje desenvolvi essa quase paranoia em acumular coisas. Talvez pela dificuldade que foi me livrar de tudo quando saí do Brasil. Talvez porque sei que vou ficar pouco tempo aqui. Determinismo a parte, não quero precisar de tanto. Não quero acumular, não quero me prender, não quero obstruir. Adoro a visão da minha sala vazia. Um tapete com algumas almofadas, um piano, violão, pedestais, escrivaninha, mesa, os tais banquinhos e a cadeira. É essa a minha sala. Posso fazer yoga aqui, dançar, praticar capoeira – se soubesse. Espaço pra preencher com que importa. Liberdade. Por isso que aquela mísera cadeira abandonada me incomodou tanto. Não quero precisar do que não preciso, não quero entrar nessa cadeia.

Coloquei um papel colado nela: “Donation“. Para que saibam que não é entulho não.

 

Mogwai – May Nothing But Happiness Come Through Your Door

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