Cuidar-me

Rejeitada, errada, envergonhada
Sentia-me
Resolvi ir limpar a casa pra distrair a cabeça
Sinto-me tão a minha mãe nessas horas
Mas a casa realmente estava imunda
E eu precisava renovar as energias.
Coloquei um álbum ao vivo de um cantor favorito, bem alto
E me lembrei de como isso transforma a faxina em euforia
Principalmente pela disputa não verbalizada com o cantor
Pra ver quem canta mais alto.
Depois fiz do banheiro um SPA
Depilação, argila na cara, hidratação no cabelo
Casa bonita. Corpo bonito.
Senti-me renovada
Mas ainda faltava cuidar da alma
Acendi duas velas e um incenso
Conversei com o Universo
Pedi forte por discernimento
Pra saber quando persistir e quando desistir
Mediante tudo aquilo que não cabe a mim
Ou que não vale a pena.
Fiz chocolate quente
Acertei o despertador pra bem cedo
Amanhã é dia de fazer melhor, ser melhor
Acreditar melhor
Dormi.

 

Choke – Aline in Chains

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4: Não tinha nada ali

Meu vizinho há pouco tempo demoliu a sua casa. Eram duas pequenas casas de madeira em seu terreno, as quais sucumbiram a pó do dia para noite.  Rapidamente uma nova começou a ser levantada, radicalmente diferente: um enorme sobrado de alvenaria. Foi interessante acompanhar assim, diariamente, esse processo; a demolição, a limpeza, o nivelamento do terreno, os pilares, os tijolos dando contorno à construção, o cimento, a pintura… Não me lembro de quanto tempo levou exatamente, mas parece que foi magicamente rápido; parece que há poucos dias não tinha nada ali, e agora há um enorme sobrado quase finalizado. Isso me inspirou muito. Porque eu sinto que na minha vida também aconteceu uma análoga demolição. E é difícil, muito difícil, enxergar uma construção emergindo do terreno vazio, ainda tão destroçado e bagunçado. É passo por passo. Dia por dia.

Já se tornou parte da rotina acordar e dizer: falta um dia a menos para o embarque. A contagem regressiva não é pela expectativa com o futuro, mas pela preocupação com o presente, perante tudo que é preciso ser edificado. Acordar no meio da madruga pelos gritos dos meus pensamentos já é de praxe também. Não está sendo nada fácil. Sinto-me desolada no meio de tanto a se fazer. Muitas vezes me acho prepotente, ou sem senso de realidade. Como se eu estivesse fazendo algo além da minha capacidade. Faltam menos de 3 meses agora, e ainda sinto-me num terreno vazio.

Imprimi um mapa de Montreal, bem detalhado. Coloquei na minha estante de partitura. Bem visível. Salvei uma foto bonita de Montreal em novembro, toda dourada pelo outono. Coloquei como fundo de tela do meu computador. Bem visível. Na psicologia isso é chamado de “reforço positivo”, na física quântica de “lei da atração”, de qualquer forma, acho válido. Como se fosse a planta da casa que orienta a construção. Confesso que ainda tenho dificuldade em visualizar essa mudança. Ainda parece brincadeira. Fantasia. Ainda é muito estranho dizer: Estou me mudando para o Canadá. Como se não fosse verdade. É difícil visualizar o resultado nesse estágio, no meio de tanto entulho e vazio. Mas eu sei que é passo por passo, tijolo por tijolo, dia por dia, e daqui a algum tempo, já perante a obra erguida, eu vou me flagrar dizendo: nossa, não tinha nada aqui.

 

Low – Mark Lanegan

Primeira Pessoa

– 29 anos

A maior carência da solidão não está na falta do outro, mas na falta de si mesmo através do reconhecimento; como se a percepção de si dependente da constatação do outro. Sozinho é difícil legitimar-se. O toque, a visão, a voz. Processos externos. Quem me toca, me vê, me ouve? Difícil em primeira pessoa.

Nenhum aniversário foi mais solitário do que esse. Uma síntese deste ano. São dias e dias ao som da minha própria voz, que por falta de um ouvinte transforma o silêncio em plateia. Difícil sustentar um ano tão pesado como este nos ombros Muitas vezes me desmorono. E aí penso “sorte não ter ninguém”, porque este se assustaria. Ou talvez me desmorone por falta de suporte? Já não sei. Sinto-me usualmente pequena. Incapaz. Mas, como tudo, isso passa. E aí me proponho, fervorosamente, a transformar a fragilidade em força. Não é um passe de mágica.

Meu aniversário caiu num sábado. Azar o meu. É bem aos finais de semana que a solidão se torna mais forte. Fui a um parque no final da tarde. Neste mês uma terapeuta holística me disse que a minha cor de “recarga enérgica” é a verde. Achei muito certeiro. Não me há remédio mais poderoso do que a natureza. Ir a um parque me é algo tão transformador que eu mesma não entendo o poder disso sobre mim. Ontem fui ao magistral parque Tanguá, e caminhei rumo ao meu local preferido: um gramado nos confins no parque adornado por esparsas e altas árvores, criando um efeito de dimensão, de liberdade. Deitei no gramado e fiquei assim por muito tempo, ao som de pássaros e galhos ao vento, vendo aquele céu sendo pintando pelo sol poente. A solidão naquele momento se dissolvia e se transmutava em solitude. Serena contemplação. Íntimo encontro. Eu me esquecia naquele ambiente e assim me encontrava; esquecia de minhas vaidades, inseguranças, feridas; e assim conseguia verdadeiramente me perceber. Talvez a gente precise tanto de alguém pra isso; para esquecer-se e reencontrar-se.

Deitada naquela grama, com aquela visão paradisíaca, eu me lembrei do motivo que me trouxera à Curitiba. Eu queria um lugar bonito. Eu queria uma vida bonita. E eu tinha. E eu tinha. E neste instante me lembrei fortemente, e muito emocionada, do trecho de um canção:

If only they could see,
if only they had been here,
they would understand,
how someone could have chosen
to go the length I’ve gone,
to spend just one day riding.

Meus 29 anos surgem como a etapa mais verídica de minha vida. São camadas e camadas que me despido e assim me descubro. É assustar estar assim: nu. Sinto-me frágil, vulnerável. Sinto frio. Mas sinto grande alívio também, como se deixasse uma casca dura e pesada para trás. Como se partisse. Esse momento é meu. E eu preciso vivenciá-lo a sós. Hoje, no meu primeiro dia com 29 anos, inicio como um rito esse processo de autolegitimação. Tento me ver desprendida de mim, uma criança que precisa ser cuidada, ensinada. E me pego no colo, e me acalmo, e sussurro: está tudo bem. Está tudo bem.

 

Cayman Islands – Kings Of Convenience

3: Porta Afora

Últimos três meses no Brasil

Estamos em agosto. Como uma vida pode mudar tanto em 8 meses?  Em janeiro desde ano começou esta densa jornada de mudança de país, só que naquele momento a própria mudança não existia. A princípio era só um trabalho voluntário no exterior, ideia que surgiu com o intuito de aproveitar melhor a minha estadia na Europa visitando minha irmã. E de repente tudo mudou: o destino, a duração, o propósito. E cada vez foi mudando mais e mais, atingido o ápice neste mês. Durante todo este ano eu permaneci em uma grande ambivalência em relação à mudança para Montreal. Por um lado eu acreditava fervorosamente que isso daria certo, mas por outro parecia um tiro no escuro. E assim eu continuei a minha vida no Brasil como se (quase) nada estivesse acontecendo. Neste mês as coisas radicalmente mudaram. E eu precisei, de fato, assumir essa escolha. E com isso inciou-se a palpável dissolução da minha vida atual. Comecei a fechar portas. E portas grandes o bastante como a minha faculdade aqui. Ter saído da faculdade por causa da mudança foi um divisor de águas. Eu não ponderava fazer isso. Mesmo sabendo que um ano de graduação não teria serventia lá fora, eu não cogitei antes, em nenhum momento, sair da faculdade antes do término do ano letivo. A faculdade me era uma segurança. Uma certeza. Mas não se pode trilhar dois caminhos ao mesmo tempo. A própria data do final do semestre acadêmico não coincidia com a do início do trabalho em Montreal. Mas eu achei que daria um jeito. Qualquer jeito. Mas não foi possível, por inúmeros motivos. E assim, com a saída da faculdade, veio o peso da escolha que eu fizera. O sacrifício. O medo diante do caminho incerto que me atiro. Eu quase pirei nesse agosto.  E como toda loucura, isso me trouxe um intenso processo de lucidez e autoconhecimento. Montreal surge na minha vida como uma mão externa que me desfaz e me remonta. E agora, mais do que nunca, eu enxergo que antes de tudo existiu a minha voz, chamando por isso.

Neste mês iniciou-se o meu processo de contratação dentro do programa de trabalho no Canadá. Eu estava muito insegura em relação a isso. A aceitação no programa garante uma obtenção de vaga, mas isso me parecia muito teórico e nada certo, já que a minha contração depende de um empregador. Isso inclui um processo de “apadrinhamento de visto”. O empregador torna-se responsável pela minha estadia legal no Canadá. Esse é um programa de trabalho para estrangeiros na área social em ONGs. Posso receber apenas ajuda para moradia e alimentação, não um salário. Mas diferente de um voluntariado, eu estou sendo contratada como uma funcionária com carga horária “full-time”, e assim, entrando no país com objetivo laboral através de um visto de trabalho. Não é difícil imaginar o furacão que está dentro da minha cabeça diante disso. E os receios. Algo muito bom nesse mês foi ter recebido uma proposta de trabalho dentro das minhas expectativas. Foi a segunda que recebi. A primeira eu não aceitei, e me achei louca por isso, com receio que não houvesse outra. E a segunda veio como sob medida. E com isso comprei as passagens. Ida para Montreal. Volta para Portugal. Na teoria, porque na prática até isso mudou.

Ainda há um enorme caminho até chegar o dia do embarque. Possuo dois grandes objetivos que me guiam nessa jornada: continuar os estudos no exterior e conseguir uma renda tocando. Vou começar tocando na rua. E isso será um desafio pessoal imenso. Igualmente os estudos. Irei tentar estudar em Montreal agora. Isso não fazia parte dos planos. E nem sei como posso viabilizar isso no momento. Mas vou tentar, e essa tentativa acarreta muitos preparativos nesta pré-viagem, como tradução juramentada e proficiência. É trabalhoso e pouco certo, mas não me faz sentido ficar todo esse tempo no Canadá de braços cruzados em relação à minha formação acadêmica. E se não der certo, então eu sigo para Portugal, onde possuo cidadania. E a jornada continua. Como sempre deve continuar.

Revendo “O Senhor dos Anéis” eu me deparei com uma frase que sempre me penetrou fundo: “É perigoso sair porta afora, ele costumava dizer. Você pisa na Estrada, e se não controlar os seus pés, não há como saber até onde pode ser levado

Hoje, nesse longo agosto, eu tento alcançar um equilíbrio entre a obstinação de querer controlar o caminho e a emoção de se aventurar, assim, sem saber direito para onde estou indo, e sem querer saber.

 

Garden – Pearl Jam

Os Espinhos de Rosa

Rosa é uma menina de 10 anos com sorriso doce e olhos desesperados. É a sua segunda passagem pela unidade de acolhimento municipal. Ela não é órfã, como a maioria das crianças em um orfanato, ao contrário do que se imagina. Seus pais perderam temporariamente a sua tutela devido à suspeitas de maus-tratos. Uma história indigesta de abusos sexuais do pai e agressões físicas da mãe. Rosa também foi diagnosticada com esquizofrenia. A usual necessidade de transformar o sofrimento em patologia. Os espinhos de Rosa a perfuram, mas ninguém vê, porque sangra para dentro, só transborda para fora, e assim, a sua dor vira incontinência, anormalidade; qualquer coisa líquida e derramada; uma poça no meio do caminho, que precisa ser desviada.

Nenhum abrigo quer crianças com “problemas psiquiátricos”, termo técnico para os pequenos fora da curva. Já é difícil cuidar de criança normal, o que dirá das mentalmente enfermas. Mas não há orfanatos para crianças com transtornos mentais. Felizmente. As unidades municipais são as que acabam recebendo a bomba, e gravemente são as instituições mais carentes de profissionais e recursos. Sem psicólogos ou equipe especializada, Rosa é tratada como um fardo. A menina realmente não é fácil, em suas primeiras semanas no lar o SAMU era diariamente acionado para ir contê-la, de tamanho que era o seu descontrole.  Os espinhos de Rosa também esfolam o seu redor. Surtos de violência contra as crianças menores fazem parte da sua rotina. Rosa propaga o que consome. O abrigo vira uma guerra. As meninas maiores passam a defender as menores batendo em Rosa. A equipe dá os ombros. As surras não intimidam Rosa, já tão acostumada. E assim, a pequena cada vez mais vai se fechando em seu mundo interno, desprendendo-se do externo.  A inocência de seu sorrido vai cedendo lugar à amargura, o desespero de seus olhos à apatia. As pétalas a cada dia murcham. Os espinhos endurecem.

 

The Smashing Pumpkins – Stumbleine

Sem Lugar

Você estava com uma menina em um camarim. Era uma noite cultural na cidade, muita gente na rua, música em todo lugar. Eu não sabia direito o que estava acontecendo, tinha acabado de chegar àquela cidade. Eu te observava de longe, você não me enxergava, como há tempos não me enxerga. Eu sentia ciúmes da menina ao seu lado, era cantora e se preparava para se apresentar. Você parecia muito orgulhoso dela, feliz ao seu lado. Eu me sentia traída, como se aquele fosse o meu lugar. Naquele momento, eu me encontrava escondida em um quarto escuro e cheio de tralha antiga de palco. Vocês estavam no camarim à frente, iluminado, limpo, alegre. De repente eu me esbarro em um amontoado de holofotes e o som de vidro espatifado ensurdece o ambiente.  Vocês dois se assustam e se dirigem ao quarto onde me encontro. E sou descoberta. Eu assustada, cortada, envergonhada, saio correndo. Vocês me seguem. Já estou na rua quando sinto a sua mão brusca no meu ombro. Eu me viro e vejo você, ao lado dela, segurando uma grande mala de viagem, vazia e detonada. A mala é minha. Você hostilmente a joga em minha direção e se vai. Eu fico ali por um tempo, no meio daquela multidão, anônima, sentada na calçada ao lado de uma mala grande, vazia e rasgada. Um mendigo. Sem lugar. Mas não estou triste, se quer com raiva, mas sim aliviada, por finalmente compreender que você, não é o meu lugar.

 

Carry Home – Mark Lanegan

Garoa

Eu tinha acabado de comprar o meu carro. Meu primeiro carro. Havia tirado carta há anos e não sabia dirigir direito. Esse foi o primeiro problema. Eu morava em São Paulo há pouco tempo e não conhecia a cidade direito. Esse foi o segundo problema. Em uma das minhas primeiras aventuras dirigindo pelas ruas intermináveis daquela cidade, uma amiga estava comigo. Ela se mudou para São Paulo comigo. De certa forma, ela se mudou para São Paulo por mim. Fui eu quem a arrastei àquelas ruas imundas e infinitas, as quais a gente nunca sabe direito pra onde vai e nem como volta, ou se volta. Nesse dia, que era noite, fomos à Pizza Hut da Marginal. Eu me perdi tanto, mas tanto, que a noite já se tornava dia. E era uma ordinária quarta-feira que se perdia na madrugada paulistana, tornando aquela cidade quase irreconhecível no meio daquele silêncio e anonimato. Entorpecida pelo cenário e pelas nossas risadas intermináveis, eu gritei: “A cidade é nossa! Só tem a gente aqui! Estou te dando essa cidade! Mais uma vez.” E foi assim que essa música, “Drizzel” nasceu.

Hoje bateu uma saudade muito forte de tudo isso; dessa amiga, dessa juventude e principalmente dessas ruas errantes de São Paulo, onde eu tanto me perdi e me encontrei.

Drizzle – Aline Castanhari

Possibilidades

O que não depende de mim

Eu especulo você. Como um desejo qualquer. Analiso as possibilidades. Sonho alto. Faço cena. Monto um roteiro. Transformo você em personagem. Aí dou um riso nervoso. Achando graça, achando ridículo, achando doído. Aí relaxo, pesando que mal não faz não. Só tô especulando. Imaginando. Averiguando as possibilidades daquilo que não depende de mim. Como quem vai viajar pra um lugar novo e fica assim, imaginando, idealizando como gostaria que fosse. Eu costumo crucificar esta palavra, idealização, quando abordo circunstâncias que não cabem a mim. Assim, eu me crucifico muitíssimo idealizando você. Essa é uma parte de mim. Há a outra parte, aquela que diz que essa reprovação é pura vaidade. Uma necessidade de controle. Um medo de rejeição. Aí eu me acalmo, lembrando que toda conquista é um encontro, acima de tudo. Porque nada depende só da gente. Algumas coisas dependem mais, outras menos, mas tudo no final é coesão; encontro de forças que convergem ou divergem.

Eu fico aqui imaginando como você deve estar hoje, depois de quase uma década. Acredito que esteja melhor, assim como acredito que eu esteja. Então especulo: será que nós, hoje, juntos, não seríamos melhores? Melhores do que fomos. E se fomos felizes outrora, num período tão juvenil e instável, o que dirá de agora? Poderíamos ser tanto. Poderíamos. Eu especulo. É ai que crio esse teatro dentro de mim. É ai que te projeto. E uma mistura de repreensão com inspiração me invade. É intuição? É ilusão? O que você significa, hoje, dentro de mim?

Eu não sei direito o que você pensa. Você, tão fechado. Mas vou acabar sabendo, naturalmente, se não na sua voz, na voz do tempo. Porque se não for encontro, será ausência. E  pensando assim me sinto leve. Talvez a gente não tenha mais nada a ver. Talvez eu nunca mais te verei de novo, mesmo morando no mesmo país, na mesma cidade que você; porque o seu caminho pode não pertencer mais ao meu. Como afinal há tanto tempo não pertence. Estar me mudando para perto de você, a maior paixão que já tive, é inevitavelmente atormentador. É por isso que faço tanta cena e alimento tanta idealização. Mas, ainda assim, é leve, como tudo aquilo que não está em minhas mãos; como expectativas jogadas ao vento.

Eu fico aqui imaginando que historia bonita não seria essa, da gente se encontrando depois de tanto tempo, em outro país, em outros corpos, em outra dimensão. Uma possibilidade, apenas. Entre tantas outras.

 

Letting The Cables Sleep – Bush

 

Frio

Você ainda vai ficar sozinha menina. Por esse seu jeito, nesse seu rumo.
Sem amigos, sem família, sem companheiro. Vai passar dias e dias ao som da própria voz.
Vai saber o que é chorar de solidão, não por sentir-se sozinha, mas por estar só.
Sem ninguém pra contar. Só. Como a gente nunca imagina um dia estar.
Nem se quer contatos virtuais. Nem colegas formais. Ninguém.
Uma solidão que não é sensação, mas constatação. Condição.
Esse dia tardou, tardou, mas com tudo chegou.
É que antes você vivia disfarçando esse buraco com os seus romances. Um atrás do outro.
Até que cansou. Arriscando que a solidão afinal seria mais autêntica.
Não imaginava esse aperto. Essa asfixia.
Cada palavra não diga que desce esfolando a garganta, machucando o peito.
Cada imagem sua detida no espelho.
Você tinha que descobrir que precisamos de outros olhos para nos refletir.
O frio chega forte em julho
Aos poucos se acostuma.

 

Creep – Stone Temple Pilots