Preciso de uma bicicleta

Para resolver a vida
Tornando-a mais lenta.
Ando pegando muito metrô sabe
Não consigo ver o caminho assim
Nessa conexão veloz entre destinos fixos
Porque a chegada é sempre parada
Perco o movimento na pressa do dia-a-dia.

Preciso de uma bicicleta
Pra sair mais cedo de casa
Sentir o vento batendo no rosto
Virar a esquina errada
Descobrir uma rua nova
Preciso cansar o corpo pra silenciar a mente
Tão assustada no meio da multidão desesperada.

Preciso de uma bicicleta pra resolver a vida
Porque a vida se resolve assim
Nos detalhes
Nas sutilezas que nos carregam
Pequeninas escolhas que formatam o dia
Talvez não pra onde se vai
Mas como se vai
Preciso de freios sobre a estrada.

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O que eu quero, o que eu preciso, o que eu me obrigo

Sobre linguística, escolhas e limites

Ano passado entrei na faculdade de psicologia. Uma sala com mais de 80 alunos. Eu sentava na primeira fileira. Não conversava com ninguém. Passava o intervalo andando em volta do grande lago do campus, sozinha. Mas durante as aulas, eu não me aguentava. Sempre debatia com os professores. Minha mãe já tinha falado, quando me via estudando os gigantescos livros de psicologia antes mesmo de começar a faculdade: “Vai entrar no curso discutindo com os professores! Pensando que sabe mais do que eles!” Nem de longe isso. É que eu tenho uma necessidade gigantesca de comunicação; de deliberação. Rapidamente um boato se espalhou pela turma: de que eu era formada em filosofia. Por isso “sabia” tanto. Quem me dera. Todos os dias algum colega me abordava no corredor ou na fila do refeitório e me dizia: “Meu deus menina, como você é inteligente!” Nem de longe isso. É que sempre tive esse dom de abrir a boca e impressionar. De ser admirada por isso. Meu ponto forte. Até chegar aqui, em Montreal, onde perdi a minha voz. Onde o meu discurso não é maior e nem mais elaborado do que o de uma criança de poucos anos. E como isso me dói.

Cheguei no Canada com um nível de inglês bem limitado e sem francês algum. A gente sempre pensa que morar em um país é sinônimo de aprendizagem de idioma. Assim, por osmose. Não. Não. O desenvolvimento do idioma é uma consequência do meio em que o indivíduo se encontra e do seu uso da linguagem perante esse. Como uma criança que sem estímulo, não vai falar. Se um imigrante chega aqui e se limita à convivência de pessoas da sua nacionalidade, se tem um trabalho operacional o qual a linguagem não é uma ferramenta, se a sua necessidade de linguagem se limita à poucas e simples frases; não há desenvolvimento da língua. Por exemplo, eu atendo imigrantes que estão aqui há vida inteira e não falam nem inglês nem francês. A linguagem é passiva.

Durante 6 meses eu não peguei o inglês nem o francês pra estudar. Isso fugiu do meu controle. No meio da turbulência da mudança, do novo trabalho, da nova vida, a impossibilidade de fazer um curso particular… Assim, o objetivo de estudar por conta foi saindo do meu controle. Do lado de fora, não havia estímulos. Morando sozinha, sem amigos, trabalhando com idosos. Meu uso diário da linguagem se resume em poucas e simples frases. As esparsas vezes que me deparo com a necessidade de um discurso mais consistente, afundo.

Perdi a minha identidade. Sinto. Perdi a minha voz. E sinto-me em meio oceano sem saber nadar. Debatendo os braços e as pernas sem sair do lugar.

Desde que cheguei aqui eu me algemei na obrigação de aprender francês. Soa negativo essa frase não, pois ela é. Desde que cheguei não consegui encarar o aprendizado de uma nova língua como uma vantagem, uma oportunidade. No meio de tantas atribuições e dificuldades, o francês se tornou uma pedra algemada. Tornou-se insuportável para mim, por exemplo, ter que pedir para que falem inglês comigo na rua. Sempre fiz todo o esforço para falar o que dava em francês. Frases decoradas. Entrando no Google Tradutor cada vez que saia de casa. Nunca me senti no direito de falar inglês aqui. O francês se tornou uma auto-obrigação que eu me impunha. Sem precisar.

Ficar em Montreal, no Quebec, nunca foi um objetivo. E não é. Ano que vem estou me mudando daqui. Eu trabalho em inglês e espanhol. Por isso digo que não preciso aprender francês. É autossatisfação, apenas. Atrevo a dizer “capricho” até. Algo secundário. Aprender um novo idioma é algo maravilhoso e muito nobre, mas se não for uma prioridade, torna-se um peso por sua tamanha complexidade. Inglês é uma prioridade para mim. Conseguir me comunicar bem aqui dentro do inglês – a língua que uso – é uma prioridade. Também tenho muitos objetivos futuros com o inglês. Meu trabalho aqui – motivo que me trouxa à Montreal – é uma prioridade. A música sempre foi e sempre será uma prioridade. E já são prioridades demais para se carregar,

Obrigação precisa ser prioridade para conseguir ser suportada. Família é obrigação. relacionamento é obrigação. Trabalho, estudo. O nosso tempo é limitado. Sem dúvida alguma o segredo para uma vida saudável é o equilíbrio deste tempo. A maneira que gerenciamos nossos objetivos, nossos afazeres, nossas necessidades. Não é fácil. São tantas opções, tantas vontades, mas também tantas atribuições e limitações; que é fácil se perder ou soterra-se – assim com as próprias mãos. Quanto mais nos dividimos, mais exaustos e angustiados ficamos. É como ter uma vasta plantação para cultivar. E assim, repartindo o adubo e a atenção, o crescimento torna-se lento e debilitado.

Nesses últimos meses mergulhei de cabeça no estudo do inglês. E neste mês comecei o esperado curso intensivo gratuito de francês, o qual eu lutei muito para conseguir. Seis horas por dia de curso. Fora o tempo de ir, voltar… Uma jornada de trabalho. Mas a minha jornada oficial começava depois do curso. E após isso ainda precisava estudar inglês e me dedicar à música.Assim, pirei. Pirei. Já estava exausta. O curso foi a gota que faltava para a minha enchente.

Seis horas por dia em algo que não é prioridade. Uma sala lotada de alunos. Não há atenção individual. A necessidade vital de estudar diariamente o conteúdo – algo impossível para mim. Frustação. Mais uma. Pouca horas para estudar inglês. Exaustão total para me dedicar a música. Frustração. Total.

Decidi sair do curso. Isso no começo me era imponderado. Sentia-me uma fraca quando pensava nisso. Olha essa oportunidade! Como vou jogar isso pro alto! O externo massacrando o interno. Quantas vezes não seguimos esse parâmetro na vida? Colocando o urgente no lugar do importante. Preciso urgente aprender francês porque estou em Montreal. Uma obrigação que não é uma prioridade, por isso se tornou uma algema; algemada pelas próprias mãos.

Vulnerabilidade. Qualidade ou estado daquilo que se encontra vulnerável; frágil, ferido. É difícil admitir isso. Enxergar isso. A sútil diferença entre o que precisamos e o que pensamos precisar. Colocar filtro no meio que nos cerca. O que realmente quero e o que me fazem acreditar que quero? A complexidade é grande mas talvez a resposta seja simples: Tranquilidade. Paz de espírito, como costumam chamar. E eu acredito piamente que isso está no contrário da turbulência e do desdobramento. Qualidade, não quantidade. Arquitetar-se pra cima em um só ponto, não derramar-se para todos os lados tentando cobrir uma área imensa. Escolhas.

Em Montreal encontrei uma exaustão maior do que o mundo. Tô cansada de me mudar, tô cansada de recomeçar, tô cansada de correr para todos os lados e assim não chegar a lugar algum. Mas pouca a pouco, vou aprendendo a transformar essa cansaço – esse limite – em ação, em mudança.

Amanhã é novo ciclo.

 

Before the Beginning – John Frusciante

Entreter Você

O que mais me desagrada em um relacionamento a dois é a implícita responsabilidade de entretenimento. Entreter o outo. É isso que me cansa. É isso que me faz desejar estar a sós para aliviar-me um pouco. Descansar. Não devia ser assim penso. Assim, pesado. Mas sempre é, pra mim. Talvez pela minha falta de costume de conviver com pessoas. Tantos anos morando sozinha. Ou talvez pela genética. Sempre me lembro do meu pai dormindo sozinho em um quarto, ou trancado em um escritório com seus livros. Distante, fechado em seu mundo.

Guardo uma lembrança bonita, eu e uma amiga na estrada à noite ouvindo The Mission. Não sei se era pela música, ou pelo cenário idílico, mas passamos muito tempo sem pronunciar nenhuma palavra. E essa amiga em si é uma das pessoas mais tagarelas que conheço. Até que ela quebrou o silencia dizendo: – Incrível não, a gente não precisa dizer nada para compartilhar um momento intenso uma com a outra.

Acho que o segredo é compartilhar mais e doar-se menos. Conseguir colocar a rotina do outro dentro da nossa. Eu posso ficar no quarto estudando enquanto você fica na sala tocando guitarra. Quando eu me cansar eu posso te contar sobre o que li, aprendi, confundi. Você pode me mostrar o riff que tá tirando. Eu posso ficar na cozinha fazendo o meu almoço da semana enquanto você assiste aquela série que gosta e que eu acho idiota. Eu posso sair pra correr no parque enquanto você joga videogame. Porque você não gosta de sair pra correr e eu muito menos gosto de jogar. E quando eu voltar, eu posso descasar em você.

Deveria ser algo assim, penso. Leve. Cansa essa procura de beiradas na semana para preencher com o outro. Para entreter o outro. Quando o que queremos é descansar e conseguir um tempo para nós mesmos. Não precisamos de tantas afinidades em comum, mas sim de um tempo em comum, juntos, sendo nós mesmos, cuidando de nossas vidas. Algo menos espetacular e teatral, mais orgânico e simples, possível.

Where do you draw the line?

7 meses em Montreal

O tempo é diferente aqui, assistindo as estações. Quando cheguei aos -3 graus, que rapidamente se transformaram em -13 e -23 até -33; eu jamais imaginaria que em poucos meses estaria suando aos +33, com 2 ventiladores em casa na minha cara. Diariamente costumo encarar as ruas mais cotidianas, tentando me lembrar de como eram com toda aquela neve, mas é difícil nesse oposto; tudo tão verde, florido, colorido. Parece outro lugar. Mas é só outro tempo.

Começo a me preocupar com o final do verão, quando faltará pouco tempo para a minha partida. Preocupo-me em não conseguir fazer tudo que quero; em não conseguir acompanhar esse tempo que anda aos galopes enquanto eu sinto-me rastejar. Mas então penso que isso é errado, e que o meu tempo interno não tem nada a ver com o externo. São grandezas diferentes. A ansiedade, o desespero, a frustração; é a não aceitação dessa singularidade.

Aprendi uma expressão legal em inglês: “Where do you draw the line?”. Ao pé da letra: “Onde você desenha a linha?”. Essa expressão é usada para contestar os limites; a linha final que determina ou separa. A gente sempre procura uma linearidade na vida, um plano certo, receita de bolo, fórmula matemática, planilha de Excel; mas difícil, difícil, colocar a selvagem realidade num quadrado, num tempo determinado, delimitado.

Cheguei em Montreal perdida, assustada, quase pedindo pra ir embora. Mas eu não tinha pra onde ir. Só me restava fazer desse lugar um lar. E direcionar a minha vida a partir daqui. Acredito piamente numa espécie de sabedoria maior que rege as nossas vidas. Uma consciência maior dentro da nossa estreita consciência. Os religiosos chamam de Deus, os místicos de karma, destino. Eu não sei o que é exatamente e nem quero rotular. Apenas sei que existe. E que posso sim confiar nesses braços invisíveis que me carregam, deixando toda aquela ansiedade, preocupação, pressa; de lado. A vida sempre esfregou isso na minha cara, mesmo eu arduamente pertencendo ao time do “esforço e foco”. Montreal me lembra fortemente dessa força além da força. Desse tempo além do tempo. Nosso tempo. Em 7 meses meu caminho se reinventou totalmente. Para onde eu estava indo, o que estava tentando; tudo criou uma nova direção. Eu tive que vir até aqui para encontrar isso. Aqui, o último lugar do mundo que imaginei que viria. E estou.

O tempo é diferente aqui.

Against the Wall – Seether

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MEIO

– 6 meses em Montreal

Tenho medo que o meio seja uma volta para o começo. Círculo. Porque essa caminhada interna através dos dias, não tem linha, sentido, coerência. É espiral. Turbulência. Inconstância. Acumulamos ou desgastamos? Cansamos. Desaceleramos. Voltamos? Como é alavancar em silêncio pelas paredes da rotina? Os ganhos recompensam as perdas? As perdas subtraem os ganhos? Meio.

Entrei num Café num bairro de subúrbio em Montreal. Tinha acabado de sair do trabalho e tinha consulta dental marcada. O meio tempo foi no café. Que sensação maravilhosa esse meio tempo entre algo que já se fez e algo que se vai fazer. Como quando viajamos entre dois pontos. Estamos calmos. Estamos em paz. Estamos percorrendo algo passivamente. Nessa tranquilidade, aproximei-me do balcão: – Excusez-moi, avez-vous lait de soja? – Oui – Parfait, Je veux un café avec du lait de soja – Petit ou grand? – Petit s’il vous plaît. – Oui. – Mot de passe wifi s’il vous plaît?

Sentei na mesa com meu café com leite de soja. Suspirei. Quantas pessoas não gostariam de estar aqui na minha pele agora. Pedindo um café em francês numa cafeteria local de Montreal. Senti vergonha de minhas corriqueiras reclamações. Senti gratidão também. Naquele meio tempo fora do tempo.

Uma cliente me disse hoje enquanto estávamos caminhando: – Estou tão mal, sempre me sinto mal, acho que estou morrendo. – Sério? Mas pessoas morrendo não andam na rua e nem vão à padaria comprar pão! (risos) Elas costumam estar no hospital! – (risos) Verdade. Você está certa, preciso agradecer e não reclamar tanto.

Frequentemente me sinto sufocada aqui. Nessa correria entre os dias, que sempre parecem estar tão à frente. Sufocada pelo inglês que tanto escorrego, pelo francês que não falo. Sufocada tentando fazer tanto num tempo contado, limitado. Um dia a mais é um dia menos. Depois me lembro que tudo é ponto de vista. E que felicidade é gratidão, não realização.

Nesse meio de caminho paro, fazendo um meio tempo. Assisto-me. Respiro. São tantas perguntas. Sempre. Falta tempo para as respostas. Então ignoramos e continuamos nessa corrida diária rumo não sabemos aonde. Fazendo não sabemos direito o quê. Tenho medo dessa alienação, desse maremoto que desaba o chão debaixo dos pés.

Difícil lidar com a auto cobrança. Estar aqui me é tão caro, em todos os sentidos. Então, é quase inevitável esse torpor, esse desespero absurdo pra fazer valer a pena, pra dar o melhor, pra se tornar melhor.

Limite. Hoje conversando com a minha coordenadora, comentando os detalhes sobre cada cliente que atendo, senti o chão arenoso debaixo de mim. Meu inglês ainda tão débil. Meu dia ainda tão desorganizado. Tanto ainda para se fazer, para se conquistar. Frustração.

Aceitação. Tento achar um meio. Um equilíbrio entre tudo que quero, tudo que não consigo, tudo que posso, tudo que não alcanço. Agradecer, não só lamentar. Porque angústia é inevitável. Gratidão é escolha. Acreditar, não só temer. Porque medo é inevitável. Fé é força. Se agradeço, se acredito; compenso. Encontro um meio.

 

I Know You Are, But What Am I? – Mogwai

A Cadeira / A Cadeia

Seria possível mobiliar uma casa inteira com móveis e utensílios achados sobre as calçadas de Montreal. Principalmente no McGill Ghetto, onde trabalho, pela alta volatilidade de estudante. Não consigo ver isso com muito bons olhos. Obviamente só abandonam o que não tem valor, ao contrário vende-se. Para mim é uma poluição lascada nas ruas. Mas, isso ajuda muita gente. Rapidamente tudo é resgatado e reutilizado. Já é cena cotidiana pessoas com uma cadeira nas mãos ou um colchão aos trapos nas costas pelas ruas. Ontem eu fui uma delas. Resgatei uma cadeira. Oscilei muito. Na verdade passei reto por ela, voltei pra casa, refleti, dei meia volta e fui buscá-la. Cadeira simples tipo de escola. Com os pés bem enferrujados. Fiquei incomodada. Não pela ferrugem, mas pela sua presença na minha cada, ocupando espaço. Rapidamente pensei: “Mais uma coisa pra eu me livrar quando me mudar.” Muita ansiedade? Talvez. Mas a corpo daquela cadeira pesou o meu chão.

Por que preciso de mais uma cadeira? A questão é que tenho duas cadeiras e dois bancos de tocar; um para o piano e outro pro violão. O do piano veio com o piano, já tinha o banquinho pro violão. Ai deixo uma cadeira na sala e outra no meu quarto pra colocar as roupas em cima, algo bem importante porque nem cama tenho, então, a cadeira no quarto é muito útil. Os banquinhos na sala não são confortáveis pra estudar comer na mesa e já que tenho uma escrivaninha também, fico arrastando toda hora a cadeira entre essa escrivaninha e a mesa. Por isso que queria afinal outra cadeira, pra ter duas na sala. Mas, qual o problema afinal de ter que mudar o lugar da cadeira dentro de um único cômodo? Foi essa pergunta que me pesou. A madrugada toda.

Devolvi a cadeira para a rua. Senti-me mal por me senti poluindo a calçada, mas tentei me consolar que rapidamente alguém a pegaria, e faria um melhor uso do que eu e minha vaidade.

Há poucos anos atrás estava eu aqui na vida fazendo coleções e coleções de objetos: Cds, Dvds, livros, decoração, roupas, sapatos. Hoje desenvolvi essa quase paranoia em acumular coisas. Talvez pela dificuldade que foi me livrar de tudo quando saí do Brasil. Talvez porque sei que vou ficar pouco tempo aqui. Determinismo a parte, não quero precisar de tanto. Não quero acumular, não quero me prender, não quero obstruir. Adoro a visão da minha sala vazia. Um tapete com algumas almofadas, um piano, violão, pedestais, escrivaninha, mesa, os tais banquinhos e a cadeira. É essa a minha sala. Posso fazer yoga aqui, dançar, praticar capoeira – se soubesse. Espaço pra preencher com que importa. Liberdade. Por isso que aquela mísera cadeira abandonada me incomodou tanto. Não quero precisar do que não preciso, não quero entrar nessa cadeia.

Coloquei um papel colado nela: “Donation“. Para que saibam que não é entulho não.

 

Mogwai – May Nothing But Happiness Come Through Your Door

Vertigem

– 5 meses em Montreal

No final de 2012 saí de São Paulo, cidade que morei por 4 anos, e fui para Araraquara, minha cidade natal. 2013 foi um dos anos mais difíceis da minha vida. Uma ruptura brusca e assim, vagarosa. Uma confusão total sobre o que foi, o que viria, o que era. Limbo. Araraquara era o último lugar que eu queria estar, e eu voltei para lá. Estoicismo me vinha sempre à mente. O que faço aqui, por que vim pra cá? Que preço é esse que me propus a pagar? Queda. Penhasco ou céu aberto? Seria a mesma coisa?

No final de 2017 saí de Curitiba, cidade que morei por 4 anos, e fui para Montreal, sem saber direito porquê. 2018 está sendo um dos anos mais difíceis de minha vida. Uma ruptura brusca. Comigo. Uma confusão total sobre quem fui, quem sou, quem serei. Onde estarei. Porque Montreal é passagem. Eu sei. Assim como Araraquara foi. Desconexão. Reversão. Casulo fechado. Às vezes me dá um desespero danado. Uma angústia por tudo que deixei, por tudo que regredi. Ego dilacerado. Peito pesado que parece que não vai aguentar. Às vezes quero sair correndo desses espinhos pra qualquer lugar morno e macio. Mas correr sobre pontas é o que perfura. Então digo: resisto. reverto. transformo. Repito várias vezes, como um mantra, pra me convencer.

O ano de 2013 em Araraquara foi o divisor de águas. Fui pra Curitiba no ano seguinte. E eu não conseguiria sair de São Paulo e ir direto. Estava recém-operada. O acidente de carro que literalmente me tirou e me deu uma vida. Foi por isso que resolvi sair de São Paulo. Mas eu estava perdida. Desnorteada. Debilitada de todas as maneiras. Araraquara foi a ponte, o útero, a difícil passagem pro outro lado. Não só metaforicamente. Tinha decidido prestar música. Pela primeira vez estudava música a fundo, algo que fez total diferença na minha vida. Comecei piano naquele ano, minha imensurável paixão. Transmutei totalmente a minha maneira de escrever. Sei bem disso pelas inúmeras revisões que fiz em todo meu acervo. Minha escrita possui uma divisão: antes e depois de 2013. Esse ano não foi só caminho à toa que se atravessa pra se alcançar o destino. Foi construção. Porque o que me restava afinal era isso, só isso; reconstituir-me. E como isso é vagaroso.

A vida transmuta em círculos. Padrões vivências. O ontem é um espelho do amanhã. O hoje a definição. Vejo 2013 em 2018. Vejo similar ruptura. E essa árdua e lenta maturação. Mas tudo numa proporção tão maior que me deixa zonza e me tira o chão. Em Araraquara eu tinha minha família, meus amigos, minha língua, meu direito de transitar, trabalhar, permanecer. Em Montreal sou estrangeira. E tudo é estrangeiro a mim.

Dias melhores virão. Repito. Acalmo. Acredito.

 

You and I – The Living Sleep

Gaivotas em Montreal

4 meses

Várias gaivotas surgiram em Montreal. Gaivota sabe, aquele pássaro branco grande que vive onde tem mar. Montreal não tem mar. Estarão elas perdidas? Tão longe de seu habitat natural. Ou apenas de passagem por aqui? Trajeto calculado. Eu não sei.

Hoje consegui a resposta da renovação do meu visto de trabalho. Ficarei mais 6 meses aqui, após julho, quando termina o meu primeiro visto. Até dia 31 de dezembro para ser mais exata. Perguntam as gaivotas o que faço aqui? Estarei eu perdida?  Ou apenas de passagem? Trajeto calculado. Eu não sei.

Isso me lembrou do prefácio de “The Snows of Kilimanjaro”, de Hemingway, o qual cita a carcaça congelada de um leopardo no topo do Kilimanjaro. E diz: “Ninguém conseguiu explicar o que tal animal procurava em tamanha altitude”.

Muita coisa aconteceu desde que cheguei aqui. Mas ao mesmo tempo ainda me sinto paralisada, em muitos aspectos, como na língua, ou melhor; nas línguas. Eu sempre digo que a vida nos confronta com aquilo que a gente mais teme. A fala – a comunicação – sempre fora o meu traço mais forte. Uma raiz que me sustentava e me projetava. Perdi isso. E estou assim, derramada.

Montreal me deu um presente em forma de gente. Não qualquer gente. Ou qualquer presente. Encontrei cruzes em suas mãos. Sabe o que significa isso? Li em alguma fonte barata sobre quiromancia que apenas 9% da população possui marcas de cruz na mão. Acho que é verdade, porque ele parece pertencer a essa minoria.

A neve a cada dia derreta mais. As ruas, as calçadas, parece que acabou de chover, mas é só a neve indo embora. Enquanto as gaivotas chegam. Os corvos também chegaram. Nunca tinha visto um corvo. Estou fascinada. Montreal é repleta de corvos. E eles fazem um escândalo danado. Assim como as gaivotas. Derretendo o silêncio de toda uma estação.

É bom saber que tenho mais 8 meses aqui. Porque esses 4 meses passaram assim, num estalo. E ouço todos comentarem como esse inverno foi longo. Para mim foi um sopro. Ou melhor, um furacão.

 

Snowfall – God is an Astronaut

Enquanto as flores não nascem

– Uma estação em Montreal

É Março. O último mês do inverno. Todos comentam. As estações são literalmente um marco aqui; a passagem do tempo é demarcada e lembrada por elas: “No último verão me mudei para cá / No inverno passado eu entrei no meu emprego / No último outono a minha mãe visitou…” Para mim, brasileira, que mal me lembrava das estações, é algo engraçado. Mas três meses em Montreal mudaram totalmente a minha forma de olhar pela janela e sentir o tempo.

Eu cheguei aqui no final do outono. Última semana de novembro. Vi a paisagem amarela pouco a pouco se transformar numa totalidade branca. O céu, as ruas, o horizonte. E agora vejo o contrário. O inverno a cada dia é menor. Os dias mais quentes e longos. O sol que se apagava às 16h, a cada dia permanece mais. Gosto de pensar que tenho sido como o inverno. Chegar aqui foi um desfalecimento. O meu corpo, o meu chão, a minha voz; tudo foi coberto por uma camada branca espessa, congelada, a qual me petrificou. Mas por dentro, gosto de pensar, estou crescendo a cada dia, para logo brotar.

Li alguns trechos de O Pequeno Príncipe em francês nesta semana. Deparei-me com a passagem da raposa com o seu discurso sobre “cativar”. O pequeno príncipe pergunta o que significa isso, cativar, a raposa responde que é algo complexo e demorado, e explica que, antes de tudo, ele deverá sentar-se ao seu lado, sem dizer nada. Porque a linguagem é “uma fonte de mal-entendidos”… Como isso me tocou fundo. Logo eu que sinto que estou suficientemente longe de tudo e de todos aqui pela minha incapacidade de me comunicar. Arrisco que seja este o maior aprendizado que Montreal tenha a me oferecer; aprender uma outra comunicação, conexão, do lado oposto das palavras explicadas e descobertas. Algo silencioso e escondido, com camadas e camadas brancas em cima, as quais se desmancham a cada dia.

 

Look On Down From The Bridge – Mazzy Star

Mas ela não vai ficar aqui muito tempo

Minha principal função em meu trabalho aqui é visita domiciliar a idosos. No começo isso me assustou um pouco. Na verdade, eu não sabia exatamente o que faria aqui. Em todos os sentidos. Agora, após 1 mês de trabalho, a visita domiciliar é a minha parte favorita. Gosto de invadir vidas. Constato. Gosto da intimidade, dos detalhes escondidos. Dos porquês. Sinto-me útil nesta função, é claro, mas creio que mais do que gratificação, encontro uma espécie de alimento. Conteúdo. Outra função minha em meu trabalho é auxiliar em clubes para idosos mais autônomos. Decidi trocar alguns clubes por mais “clientes”. Nesta semana começo com mais dois idosos para visitas semanais. Ao todo ficarei com quatro. Quatro vidas. No meio da minha.

Magda é uma de minhas “clientes”, mas já combinamos que não mais a chamarei assim. É amizade, explica ela, não serviço. Porque pra mim você já é da família – todas vez ela me diz – “like my granddoughter”. Semana passada ela chamou um amigo para me conhecer. Conversamos um pouco, contei um pouco sobre mim, sobre meus porquês e procuras. E nessa semana, Magda me contou os comentários dele sobre a minha pessoa. Ele amou você! Disse: ela parece ser uma pessoa tão boa, mas ela não vai ficar aqui muito tempo. Essas palavras me penetraram fundo. Como um presságio. Não que eu tenha dúvidas, hoje, sobre isso. Mas ouvir de fora, é diferente.

Saí do Brasil especulando dois caminhos: continuar no Canadá e seguir para Portugal, onde tenho cidadania. Eu tinha meus motivos para tal divisão. Hoje, já não tenho dúvidas sobre a inviabilidade e as inúmeras desvantagens de continuar aqui, sobre tudo mediante à cidadania. Cidadania a qual me trouxe aqui, a propósito. Decidi que quero permanecer aqui apenas durante este ano. Meu contrato termina em julho. Tenho a possibilidade de renovar minha permissão de trabalho por mais 6 meses, no atual emprego ou em outro em Montreal, ou em outro em outra capital. Não sei direito o que fazer. Uma parte de mim queria ir para outro lugar, principalmente pela língua. O peso das duas línguas, entre todas as atividades diárias, anda me soterrando. Mas, há outra parte de mim, e arrisco que esta seja maior, que diz: fica. Até o final. Dá um sentido pra isso. Transforma esse peso em consistência. E depois, vá.

Quero viajar pelo Canadá também. O que começo a planejar é tentar um novo contrato para o começo de agosto, e assim ter 1 mês para viajar. No verão. Para as altas montanhas do oeste. E para o Alaska. Quero muito ir para o Alaska. Into the Wild. Porque essa Montreal tão cheia de tudo, me faz sentir falta do contrário.

Tem dias que me sinto totalmente desolada aqui, nessa língua que não alcanço, nessa solidão que não tampo. E as pessoas ainda me perguntam sobre o clima. Eu já nem lembro que é frio lá fora. Porque aqui dentro é muito mais.

 

I am the wolf – Mark Lanegan