Ciclos

Este é o meu quarto ano em Curitiba. Surge aquela sensação anacrônica de tempo: parece que faz uma vida que moro aqui, mas ao mesmo tempo parece que cheguei semana passada. É bem assustador pensar que estou há quase 4 anos aqui. Quando a gente tenta supor um tempo assim, quase meia década, isso parece tão longo. Mas não é. Passa assim, num estalo. Em São Paulo igualmente fiquei quase 4 anos, três e meio para ser mais exata. Segundo a minha mãe foram 5, ela sempre diz. É que aconteceu coisa demais, explico, aí parece que foi tempo demais. Não, você deve estar se confundindo! – ela rebate – Impossível ter sido só três anos. A gente tenta contabilizar o tempo, mas não dá não. É relativo demais. Fugas o bastante.

Mais uma vez me preparo para deixar uma cidade, uma vida, e um confronto absurdo de sentimentos já me atinge. Já sinto saudade, já sinto medo, já sinto alívio. Eu não imaginava que seria tão cedo. Curitiba eu estabeleci como passagem, nunca pretendi permanecer aqui por muito tempo, mas ainda assim pensava que ficaria um pouco mais. Então, mais do que tudo, estou naquele susto, digerindo uma mudança tão abruta que já começo a vivenciar. Mais uma. Gosto de pensar que me encontro mais preparada para tal travessia, mas sei que não. É sempre tão, tão, difícil, e isso já sei de cor. Mas hoje é sim um pouquinho diferente, pois tenho diferentes necessidades do que antes, e assim, diferentes prioridades. Por exemplo quando estava me mudando para cá, eu tive uma pira grande de querer comprar móveis antigos, e não só isso: coleção de filmes, livros de capa dura, vinis e varias bugigangas nomeadas de enfeites. E hoje o que mais quero é me desfazer de todos os meus pertences! O que dirá quando fui para São Paulo, fiz questão de pintar e decorar toda a minha casa, até o teto (literalmente), para que ficasse a minha cara. Hoje isso me parece a coisa mais insignificante do mundo. Fases. Etapas. Agora também já sei lidar um pouco melhor comigo. Eu costumo estabelecer um ideal forte de perfeição na minha vida, em tudo. Espero demais, quero demais, aposto demais. Não me repreendo por esse exagero, isso é muito ruim por um lado, mas muito bom por outro, assim como tudo. A diferença é que hoje carrego uma serenidade que suporta o meu desespero. Já sei que um recomeço é antes de tudo um parto, com sua dor, seu estranhamento, sua enorme fragilidade. E ao mesmo tempo que sou a mãe que pari e cuida, sou a criança que se inicia.

Conversando agora com a minha mãe sobre a mudança, ela também disse: “Quando você foi para Curitiba você não tinha foco, agora pelo menos é diferente.” É curiosa esta definição subjetiva de foco. Minha mãe diz isso por eu ter vindo para Curitiba sem “nada”; ao contrário do tudo que costuma reger uma mudança de cidade para a maioria: emprego, faculdade, casamento… Não, não foi um fator externo que me trouxe aqui, mas interno. Eu me trouxe aqui. E isso é “falta de foco”. Meteu o loko, dizem. Foi pro outro lado do país sem nada e sem ninguém. Que loucura! Coitada da minha mãe, minha irmã sempre contava como ela ficava sem graça ao tentar explicar o porquê de eu ter ido para Curitiba, ou para São Paulo. Agora ela me olha esperançosa, quase suplicando: não perca o foco! Logo eu que carrego todos os sonhos do mundo. Talvez este seja o problema, querer tanto e assim não me fixar em um só ponto, em um só lugar.

Estou ansiosa para doar todos os meus pertences. Soa tão poético isso: “Doa-se todos os meus pertences”. Vou vender o meu carro. Entregar a minha casa. Ir sem nada. Hoje eu sinto um peso tão grande nas costas, ou talvez seja na sola dos pés. Uma raiz que me puxa pra baixo. Eu consigo imaginar o alívio de colocar a vida numa mala, um violão nas costas e ir. Assim, leve. Porque só os olhos já pesam demais. Nas minhas últimas mudanças eu arrastei uma casa junto. Isso tirou todo o barato. Pra ser andarilho tem que ter o estilo. É você, a estrada e mais nada. Sabe, envelhecer inevitavelmente endurece. Eu não sei se é amargura ou se faz parte do ciclo da vida, assim como em troncos de árvores. Mas para o humano isso costuma fazer muito mais mal do que bem. Porque vira sinônimo de aspereza. Defesa. Um jeito metódico de ser, de querer. Lembra quando éramos adolescentes e pensávamos que podíamos tudo? O que aconteceu com aquilo? Agora temos 30 anos e precisamos de concretude. Precisamos? Eu não quero precisar. A dureza dos meus olhos pede leveza. Alívio. Um vento no rosto, janela de estrada. Partir é preciso. Principalmente de mim.

And yet I find
And yet I find
Repeating in my head
If I can’t be my own
I’d feel better dead.

Nutshell – Alice In Chains

Sentir Sentimento ou Sensação

Carl Jung define quatro funções mentais agrupas em dois grupos: O grupo racional: Pensamento e Sentimento. E o grupo irracional: Sensação e Intuição. Ele descreve o pensamento como a capacidade de compreensão, o sentimento como a de avaliação, a sensação como percepção consciente e a intuição como percepção inconsciente. Segundo Jung todas estas funções discorrem na mente, mas apenas uma em cada grupo consegue imperar por vez. Interessante a designação do sentimento como um ato racional, mesmo que oscilante ao pensamento. Acho bem lógico isso. Particularmente compreendo que nesta definição o maior confronto com o sentimento seja a sensação; desprovida de racionalização, inserida pela percepção. E afinal sentir costuma ser isso. Quando nos queimamos, por exemplo, a dor é uma constatação imediata; uma sensação. E isso é diferente de sentimento. Quando gostamos de alguém ou de algo, há uma razão para isso, um motivo deliberado. Uma reciprocidade avaliada. E se não houver? Então não é sentimento? Talvez não. Talvez seja só sensação. Ou pior, intuição. Ou ilusão. Algo assim irracional. Inexplicável. Sinto mas não compreendo. E nem avalio. Só sinto porque percebo. Ou só percebo porque sinto. Logo passa.

 

Soundtrack: Xavii – Russian Circles

Pertences

Ando me sentindo uma estranha em casa. Quando percebo estou parada no meio de um cômodo, observando, reparando. Como se este não fosse meu. Então, sinto um aperto assim agudo, acho que no pé, como se correntes invisíveis dos móveis emanassem, e me enroscassem. Eu não precisava de nada disso. De tudo isso. Poderia viver só com uma mala, assim não pesaria tanto. Nem faria tanto pó. Talvez a rinite melhorasse. Mesmo quando me mudar para uma outra casa, quero a vazia. Um colchão assim jogado. A decoração seria o espaço. Espaço. Assim o peito seria mais leve? Talvez. Hoje me sinto tão sufocada. Amarrada. Já não sirvo aqui, em mim.

Uma história Portuguesa

Nesta terça-feira fui ao Consulado de Portugal buscar a minha nacionalidade. Esta era a última parte do processo de cidadania de minha família, o qual iniciei há exatamente 10 anos atrás, em 2006, com 18 anos de idade. Demorou tanto assim por uma por uma relutância absurda de minha avó, a filha dos portugueses. Ela se recusou veemente a mudar os nomes de seus pais do seu RG, após o processo de retificação jurídica destes. E foi exatamente a minha avó quem me ajudou a encontrar o paradeiro dos documentos deles em Portugal, processo que foi muito difícil exatamente pela incompatibilidade dos dados originais com os documentos brasileiros. Situação muito usual. E sem a alteração do seu RG, era totalmente impossível continuar. Eu insisti de todas as maneiras, mas ela foi totalmente intransigente. Assim, o processo ficou paralisado, até ano passado, quando uma voz me infiltrou a mente: tente novamente. E eu tentei. E minha avó cedeu. Então, por fim, concretizei a cidadania de toda a minha família materna, finalizando aqui, nesta semana, com a minha nacionalidade em mãos.

Estou feliz, é claro, mas o momento de agora, a dita chegada, o tal desfecho; nada disso foi o mais importante. Mas sim o percurso, a imensa jornada em busca desta cidadania que mudou a minha vida de tantas maneiras. Como quando fui à Portugal em 2008 buscar as certidões de meus bisavôs, com uma mochila nas costas e todos os sonhos do mundo nos olhos. Esta foi uma das experiências mais fortes de minha vida. Também quando o processo se interrompeu e a minha frustração foi insustentável, foi aí que coloquei outra mochila sobre os ombros, mas desta vez não voltei mais. Fui para São Paulo, onde morei por 4 anos. Fui fugir de minhas dores, reconstruir minhas ruínas. São Paulo foi a morte e o renascimento de todas as minhas partes. A experiência mais profunda de minha vida. Por isso digo, sem exageros, que a busca deste pedaço de plástico que agora tenho em mãos, mudou tudo. Tudo. E isso nada tem a ver com a sua conquista.

Já a tamanha interrupção que ocorreu com a cidadania, isso me ensinou a acreditar e a aceitar que nossas grandes vontades são limitadas por grandes fatalidades, intransponíveis no momento, mas circundáveis se persistidas. Tudo tem o seu tempo, esta é a frase que permeia toda esta jornada, assim como tudo tem o seu motivo. Uma mescla de serenidade e persistência. Um caminho do meio. Uma direção que levou a tantas outras. E moldou uma vida.

O maior valor de ter este documento em mãos, após uma década, é me lembrar de tudo isso, de toda esta voragem. Efeito Borboleta. Ainda parece mentira sabe, quase um sonho que ainda durmo. É tão louco pensar que depois de tanto tempo e tanto tudo, o princípio se transformou fim. Quando eu menos esperava.

Este é o final de uma grande história e o começo de outra muito maior.

Enquanto ainda é tempo

Em 2012 sofri um grave acidente de carro, fiquei alguns dias entre a vida e a morte e um mês internada na UTI. Quando tive alta, algo que muito me pasmou foi a repercussão de meu acidente e a aproximação de meus “conhecidos”. Sim, conhecidos. Não amigos, não íntimos, apenas conhecidos. Aquelas pessoas com quem estudei há 10 anos atrás e nunca mais vi ou conversei, aqueles parentes que se eu trombar hoje na rua se quer irei reconhecer. Isso me revoltou um pouco, o auê que fizeram na minha página do facebook, as visitas aleatórias que recebi depois, as mensagens desprovidas de contexto. Não consegui encarar como demonstração de carinho ou preocupação ou nada de nobre. Eu sei que essas pessoas tiveram boa intenção, mas vejo isso muito mais como sensacionalismo. Não vejo lógica em alguém ficar mais de uma década sem manter contato, sem saber afinal se estou viva, e quando se informa que estou quase morta, se aproxima. E por fim, todos esses sumiram após a minha recuperação. Se eu tivesse morrido, o que mudaria? Nada. Para eles nada. Uma comoção anacrônica e irônica. A vida requer dramatização, não a morte.

O grave mesmo é o outro extremo. É nos distanciarmos daqueles que realmente gostamos e nos importamos, assim quase sem querer, por um deslize, uma postergação, inversão de prioridades. É a rotina frenética, é achar que sempre haverá tempo para um encontro. Mas muitas vezes não há. Porque já é tarde demais.

Hoje o irmão caçula de meu pai teve um infarto. Passou o dia em uma operação arriscada para tentar se salvar. Ainda não sei como está. E estou com medo de procurar saber. Também não tenho contato algum com esse tio. Faz muito tempo que meu pai não o vê. Muito mesmo. Não por qualquer desentendimento, mas por qualquer insignificante motivo que foi crescendo e se transformando em oblívio. Meu pai está muito triste, obviamente. Mas eu consigo sentir que a tristeza maior seja pelo tempo perdido. A gente nunca pensa que isso pode acontecer. Mas sempre pode. Meu pai teve tantas chances de marcar um encontro com o irmão, tomar uma cerveja, conversar sobre a vida que ainda viviam. Agora ele já não sabe se terá essa chance. Esse tempo. Essa vida.

A vida requer valorização, não a morte.

28 anos

O símbolo do signo de Virgem em seu mito é narrado como uma donzela, a princesa Astréia, filha do poderoso Saturno, senhor do Tempo e da Ordem. Seu reino era um paraíso mágico, todos viviam em harmonia em um vale de natureza exuberante com rios feitos de leite e mel. Até o dia que a semente do ódio foi plantada no coração dos homens. A ganância formou a guerra. A guerra devastou tudo. Os homens tornaram-se infelizes, a natureza secou e os rios viraram lama fétida. Então Astréia se pôs a chorar. Chorou incansavelmente. Não aceitava aquela realidade, não se conformava. E sem poder mudar nada, chorava. Chorou tanto que suas lágrimas inundaram o reino, afogando tudo, levando tudo, para que assim, um novo mundo pudesse renascer. Saturno retribuiu a filha levando-a aos céus, eternizando-a como signo do Zodíaco, representante de Plutão, símbolo da perfeição perdida e jamais esquecida.

Neste aniversário me lembrei forte dessa bonito lenda que representa este dia. Acho que nunca me senti tão virginiana, tão assim empenhada na busca de meu paraíso perdido. Meus aniversários costumam ser dias tomados por um turbilhão de reflexões, reavaliações e aspirações. Neste foi um tanto diferente. Apenas segui a minha rotina, sem muito pensar. Não havia necessidade. Pois eu simplesmente estava em paz com o meu presente, construindo hoje o paraíso que almejo estar amanhã. É claro que sempre podemos aprimorar, fazer melhor, ser melhor. A minha perfeição de Astréia me lembra disso sempre. Nunca fiz parte do grupo dos acomodados, conformados com a limitação própria e do mundo. E não vejo isso como frenético desassossego, mas como constante engajamento e até deslumbramento. Desdobramento. Em todo aniversário me lembro de uma cena de minha infância: eu muito criança na frente de um santinho jurando que a cada aniversário eu me tornaria uma pessoa melhor. Essa programação mental foi forte. Desde então, deste minha infância, é assim que me sinto, é assim que me proponho. Um ano acima do outro. Melhor do que o outro. Acredito que o tempo seja isso, amadurecimento e desenvolvimento. Envelhecer para mim sempre foi sinônimo de possibilidade e aprimoramento. Costumo me imaginar com 40, 50, 60, 80 anos. Uma velhinha de longos cabelos brancos e incontáveis histórias. Profundas rugas e conhecimentos. A juventude nunca me fez o feitio. Acho bonito mesmo o vivido, aquele acúmulo de coisas que atravessaram o tempo. Aquela rocha bruta que só conseguiu virar cristal pelo desgaste dos anos. Aquele grão de areia machucando a ostra que só depois de muito tempo transformou-se em pérola. Acredito com total veemência que o tempo me tornará um ser melhor e que isso me tornará capaz de transformar o mundo a minha volta. E só este acreditar já é um magnetismo, uma imantação. Um destino traçado pelas próprias mãos. Por isso envelhecer não é um medo, mas uma realização.

Costurar os pés com as mãos

Neste sábado passei o dia alinhavando roupas à mão. Tinha apresentação de dança à noite e algumas peças de meu figurino estavam largas, e sem máquina de costura e com pouco tempo, precisei arrumar na agulha mesmo. Isso me trouxe a lembrança de minha infância, de minha avó me ensinando a dar pontos à mão, pequenos truques para garantir uma costura firme que não desmanche. É muito analógico este processo, a princípio parece a coisa mais demorada do mundo unir dois longos pedaços de pano através daquela mísera junção de linha deixada pelo rastro da agulha entre os dedos. É ponto por ponto, milímetros imperceptíveis que vão formando centímetros e depois metros. Paulatinamente. Continuamente. Um caminho. E tudo se inicia com aquele primeiro minúsculo ponto. Quando percebo toda uma reta já foi emendada e a peça já encontra-se feita. Como acontece com qualquer outro percurso ou construção. Mas a maioria não consegue costurar os pés com as mãos. Querem caminho feito, disponível, imediato. E só se satisfazendo com o pronto, nada constroem, e assim, nunca se satisfazem.

O que mais vejo são pessoas amarguradas com o seu presente por este não ser como elas gostariam, mas há uma distorção aí, talvez até um segredo; a amargura não vem da insatisfação com o hoje, mas da improdutividade pessoal com este, e assim, com a desesperança que o amanhã aparenta. Não há construção, não há avanço. Há uma vida que se vive sem querer viver, distraindo-se aqui ou ali à medida do possível, ocupando o tempo que não se consegue alcançar. Para muitos o primeiro passo parece tão insignificante, que lhes é preferível a amplitude do nada. Preferem viver na fantasia onde tudo seria possível algum dia do que na realidade, onde o possível ainda é pouco e insuficiente. Essa sentença quase sempre resulta em infelicidade e vazio. Porque viver é costurar milhas com as mãos. É passo por passo, ponto por ponto. A grande satisfação vem daí, não da obra pronta, mas da construção. Sensação de dever feito,  projeto traçado, vida vivida. A sobrevivência não basta. A distração cansa. Seguir a própria essência é a única salvação. Fazer algo maior, ser maior. Para nós e principalmente para os nossos. Porque só é possível fazer alguém feliz se formos felizes. E essa tal felicidade vem do semear, do fazer, do percorrer; do viver. Verdadeiramente. Deliberadamente. Aqui e agora.

 

Presos

Hoje aguardava ser atendida em um consultório, em uma típica sala de espera com um daqueles grande aquário. Os peixes eram pequenos, só havia um único peixe grande, não muito maior do que os outros, talvez maior de presença do que de tamanho. O peixão nadava interruptamente pelo aquário fazendo um mesmo caminho: nadava para a esquerda até trombar com o vidro,dava uma cambalhota e fazia o mesmo para a direita. Por alguns instantes se enjoava e fazia a direção contrária: nadava para a cima até a margem e depois para baixo até o chão. Não parava. Não parava. Já os outros peixes pairavam na água, quase sem se mexer, quase boiando. Quietos. Conformados. O meu incômodo foi tanto que pensei em ir embora antes de ser atendida. Que tipo de pessoa é essa que aprisiona peixes em um cubículo de vidro? Que tipo de pessoa é essa que não enxerga o desespero deste animal exilado? Confinado em centímetros. Olhar aquele aquário me angustiava, entristecia, enfurecia. Queria pegar o grande peixe com as mãos e soltá-lo. Queria gritar naquela sala: esse peixe está sofrendo! Isso é sadismo! Alienação! Colocar peixes em um cubículo de vidro para o bel-prazer é medieval! Como alguém em pleno 2016 ainda faz isso?! Diriam que sou louca, exagerada, abitolada. Porque todo mundo faz isso. É normal. É cultural. Eu já penso que ninguém se importe porque quase todos nós estamos iguais àqueles peixes: desesperados ou resignados. Presos em redomas invisíveis edificadas pelas próprias mãos, atados por realidades absurdas que a nossa sociedade estabelece como normal. E talvez, ter um ser inferior preso até nos conforte, fazendo nos sentir maior e mais livre.

28 de Julho

Hoje faz muito frio aqui. Isso deixa o corpo mole. Quieto. Ando lendo um livro sobre Raja yoga, fala muito sobre completude e afirmação. Ando querendo me desconstruir. Nos últimos anos atei-me à uma rotina metódica e sintética, privando-me do hoje para alcançar o amanhã. Julho sempre me alcança forte. Esse vento gélido é pesado, cortante. Concluo que o caminho só vale a pena se for para caminhar. Ao contrário, se caminhamos para chegar, secamos. Como atravessar um deserto em busca de um oásis. É desespero. Fuga. É muita coisa, mas não é momento. Não é vida. A fugacidade e fragilidade do tempo andam me cutucando os olhos. A mãe de um amigo faleceu ontem, há poucas semanas conversamos por telefone, ele com entusiasmo me contava seus planos de levar sua mãe para a cidade que se mudara. Tudo parece tão pequeno hoje. Insignificante. Um detalhe. O vento que move as árvores parece muito maior. Decidi fazer tudo diferente, para isso tive que interromper tudo que fazia, desocupar para ocupar. Vazio. Ando chorando muito, não de tristeza, mas de comoção. Uma percepção afiada, que rasga. Completude é sair de si para olhar para fora, estar de fora para olhar para si. Hoje eu me sinto sozinha num barco em mar aberto. Distante. Só minha. Sem âncoras. Toda superficialidade, vaidade, todo aquele continente limitado, isolado diante de si, para trás. Todas aquelas necessidades que não me pertencem, aqueles julgamentos que não me competem. Para trás.

Porta-retrato

Revelei fotos antigas de uma festa de aniversário perdida no tempo. Você abraçava o seu pai naturalmente, verdadeiramente. Havia uma alegria serena nos olhos do meu vó. Uma pureza naquela pele pálida e cansada. As fotos emolduradas empoleiradas na mesa a esperam chegar. Eu quis escrever um bilhete, tardei em fazer achando que poderia soar um tanto mórbido, mas agora que escrevi achei leve, como asas: Todos os dias você irá ver este porta-retrato, e gostaria que a lembrança do seu pai te lembrasse de como a vida é uma passagem. Os problemas, as dores, as alegrias, as pessoas quem amamos. Tudo passa, tudo é sopro, correnteza sem fim. Mas nos esquecemos disso a todo momento, e ao invés de navegarmos, afogamos-nos paralisados lamentando a terra firme que não chega, e nunca chegará. Em vez de aproveitarmos o tempo fugaz com aqueles que amamos, deixamos que pequenas diferenças e deslizes corroa este momento e o transforme em problema, quando poderia ser solução. E para que isso? Gostaria que você se perguntasse quando olhasse esta foto. Para quê isso? Se tudo, tudo, tudo passa. E não volta. Será que amanhã estaremos aqui? Até quando teremos uns aos outros? Nossa família, esse nosso ser continuado em outro alguém. Tudo torna-se muito pequeno pensando assim. Somos muito pequenos. Partículas carregadas pelo vento. Estamos indo a cada dia. Sumindo aos poucos. Desperdiçar a vida que resta é uma loucura. Quando penso no vó eu lembro disso, sinto vergonha de minhas entregas, e sinto força também. Força para fazer o melhor, viver o melhor, amar melhor. Amar enquanto ainda é tempo. Queria que esta foto lhe dissesse isso.