Primeira Pessoa

– 29 anos

A maior carência da solidão não está na falta do outro, mas na falta de si mesmo através do reconhecimento; como se a percepção de si dependente da constatação do outro. Sozinho é difícil legitimar-se. O toque, a visão, a voz. Processos externos. Quem me toca, me vê, me ouve? Difícil em primeira pessoa.

Nenhum aniversário foi mais solitário do que esse. Uma síntese deste ano. São dias e dias ao som da minha própria voz, que por falta de um ouvinte transforma o silêncio em plateia. Difícil sustentar um ano tão pesado como este nos ombros Muitas vezes me desmorono. E aí penso “sorte não ter ninguém”, porque este se assustaria. Ou talvez me desmorone por falta de suporte? Já não sei. Sinto-me usualmente pequena. Incapaz. Mas, como tudo, isso passa. E aí me proponho, fervorosamente, a transformar a fragilidade em força. Não é um passe de mágica.

Meu aniversário caiu num sábado. Azar o meu. É bem aos finais de semana que a solidão se torna mais forte. Fui a um parque no final da tarde. Neste mês uma terapeuta holística me disse que a minha cor de “recarga enérgica” é a verde. Achei muito certeiro. Não me há remédio mais poderoso do que a natureza. Ir a um parque me é algo tão transformador que eu mesma não entendo o poder disso sobre mim. Ontem fui ao magistral parque Tanguá, e caminhei rumo ao meu local preferido: um gramado nos confins no parque adornado por esparsas e altas árvores, criando um efeito de dimensão, de liberdade. Deitei no gramado e fiquei assim por muito tempo, ao som de pássaros e galhos ao vento, vendo aquele céu sendo pintando pelo sol poente. A solidão naquele momento se dissolvia e se transmutava em solitude. Serena contemplação. Íntimo encontro. Eu me esquecia naquele ambiente e assim me encontrava; esquecia de minhas vaidades, inseguranças, feridas; e assim conseguia verdadeiramente me perceber. Talvez a gente precise tanto de alguém pra isso; para esquecer-se e reencontrar-se.

Deitada naquela grama, com aquela visão paradisíaca, eu me lembrei do motivo que me trouxera à Curitiba. Eu queria um lugar bonito. Eu queria uma vida bonita. E eu tinha. E eu tinha. E neste instante me lembrei fortemente, e muito emocionada, do trecho de um canção:

If only they could see,
if only they had been here,
they would understand,
how someone could have chosen
to go the length I’ve gone,
to spend just one day riding.

Meus 29 anos surgem como a etapa mais verídica de minha vida. São camadas e camadas que me despido e assim me descubro. É assustar estar assim: nu. Sinto-me frágil, vulnerável. Sinto frio. Mas sinto grande alívio também, como se deixasse uma casca dura e pesada para trás. Como se partisse. Esse momento é meu. E eu preciso vivenciá-lo a sós. Hoje, no meu primeiro dia com 29 anos, inicio como um rito esse processo de autolegitimação. Tento me ver desprendida de mim, uma criança que precisa ser cuidada, ensinada. E me pego no colo, e me acalmo, e sussurro: está tudo bem. Está tudo bem.

 

Cayman Islands – Kings Of Convenience

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Os Espinhos de Rosa

Rosa é uma menina de 10 anos com sorriso doce e olhos desesperados. É a sua segunda passagem pela unidade de acolhimento municipal. Ela não é órfã, como a maioria das crianças em um orfanato, ao contrário do que se imagina. Seus pais perderam temporariamente a sua tutela devido à suspeitas de maus-tratos. Uma história indigesta de abusos sexuais do pai e agressões físicas da mãe. Rosa também foi diagnosticada com esquizofrenia. A usual necessidade de transformar o sofrimento em patologia. Os espinhos de Rosa a perfuram, mas ninguém vê, porque sangra para dentro, só transborda para fora, e assim, a sua dor vira incontinência, anormalidade; qualquer coisa líquida e derramada; uma poça no meio do caminho, que precisa ser desviada.

Nenhum abrigo quer crianças com “problemas psiquiátricos”, termo técnico para os pequenos fora da curva. Já é difícil cuidar de criança normal, o que dirá das mentalmente enfermas. Mas não há orfanatos para crianças com transtornos mentais. Felizmente. As unidades municipais são as que acabam recebendo a bomba, e gravemente são as instituições mais carentes de profissionais e recursos. Sem psicólogos ou equipe especializada, Rosa é tratada como um fardo. A menina realmente não é fácil, em suas primeiras semanas no lar o SAMU era diariamente acionado para ir contê-la, de tamanho que era o seu descontrole.  Os espinhos de Rosa também esfolam o seu redor. Surtos de violência contra as crianças menores fazem parte da sua rotina. Rosa propaga o que consome. O abrigo vira uma guerra. As meninas maiores passam a defender as menores batendo em Rosa. A equipe dá os ombros. As surras não intimidam Rosa, já tão acostumada. E assim, a pequena cada vez mais vai se fechando em seu mundo interno, desprendendo-se do externo.  A inocência de seu sorrido vai cedendo lugar à amargura, o desespero de seus olhos à apatia. As pétalas a cada dia murcham. Os espinhos endurecem.

 

The Smashing Pumpkins – Stumbleine

Sem Lugar

Você estava com uma menina em um camarim. Era uma noite cultural na cidade, muita gente na rua, música em todo lugar. Eu não sabia direito o que estava acontecendo, tinha acabado de chegar àquela cidade. Eu te observava de longe, você não me enxergava, como há tempos não me enxerga. Eu sentia ciúmes da menina ao seu lado, era cantora e se preparava para se apresentar. Você parecia muito orgulhoso dela, feliz ao seu lado. Eu me sentia traída, como se aquele fosse o meu lugar. Naquele momento, eu me encontrava escondida em um quarto escuro e cheio de tralha antiga de palco. Vocês estavam no camarim à frente, iluminado, limpo, alegre. De repente eu me esbarro em um amontoado de holofotes e o som de vidro espatifado ensurdece o ambiente.  Vocês dois se assustam e se dirigem ao quarto onde me encontro. E sou descoberta. Eu assustada, cortada, envergonhada, saio correndo. Vocês me seguem. Já estou na rua quando sinto a sua mão brusca no meu ombro. Eu me viro e vejo você, ao lado dela, segurando uma grande mala de viagem, vazia e detonada. A mala é minha. Você hostilmente a joga em minha direção e se vai. Eu fico ali por um tempo, no meio daquela multidão, anônima, sentada na calçada ao lado de uma mala grande, vazia e rasgada. Um mendigo. Sem lugar. Mas não estou triste, se quer com raiva, mas sim aliviada, por finalmente compreender que você, não é o meu lugar.

 

Carry Home – Mark Lanegan

Garoa

Eu tinha acabado de comprar o meu carro. Meu primeiro carro. Havia tirado carta há anos e não sabia dirigir direito. Esse foi o primeiro problema. Eu morava em São Paulo há pouco tempo e não conhecia a cidade direito. Esse foi o segundo problema. Em uma das minhas primeiras aventuras dirigindo pelas ruas intermináveis daquela cidade, uma amiga estava comigo. Ela se mudou para São Paulo comigo. De certa forma, ela se mudou para São Paulo por mim. Fui eu quem a arrastei àquelas ruas imundas e infinitas, as quais a gente nunca sabe direito pra onde vai e nem como volta, ou se volta. Nesse dia, que era noite, fomos à Pizza Hut da Marginal. Eu me perdi tanto, mas tanto, que a noite já se tornava dia. E era uma ordinária quarta-feira que se perdia na madrugada paulistana, tornando aquela cidade quase irreconhecível no meio daquele silêncio e anonimato. Entorpecida pelo cenário e pelas nossas risadas intermináveis, eu gritei: “A cidade é nossa! Só tem a gente aqui! Estou te dando essa cidade! Mais uma vez.” E foi assim que essa música, “Drizzel” nasceu.

Hoje bateu uma saudade muito forte de tudo isso; dessa amiga, dessa juventude e principalmente dessas ruas errantes de São Paulo, onde eu tanto me perdi e me encontrei.

Drizzle – Aline Castanhari

Possibilidades

O que não depende de mim

Eu especulo você. Como um desejo qualquer. Analiso as possibilidades. Sonho alto. Faço cena. Monto um roteiro. Transformo você em personagem. Aí dou um riso nervoso. Achando graça, achando ridículo, achando doído. Aí relaxo, pesando que mal não faz não. Só tô especulando. Imaginando. Averiguando as possibilidades daquilo que não depende de mim. Como quem vai viajar pra um lugar novo e fica assim, imaginando, idealizando como gostaria que fosse. Eu costumo crucificar esta palavra, idealização, quando abordo circunstâncias que não cabem a mim. Assim, eu me crucifico muitíssimo idealizando você. Essa é uma parte de mim. Há a outra parte, aquela que diz que essa reprovação é pura vaidade. Uma necessidade de controle. Um medo de rejeição. Aí eu me acalmo, lembrando que toda conquista é um encontro, acima de tudo. Porque nada depende só da gente. Algumas coisas dependem mais, outras menos, mas tudo no final é coesão; encontro de forças que convergem ou divergem.

Eu fico aqui imaginando como você deve estar hoje, depois de quase uma década. Acredito que esteja melhor, assim como acredito que eu esteja. Então especulo: será que nós, hoje, juntos, não seríamos melhores? Melhores do que fomos. E se fomos felizes outrora, num período tão juvenil e instável, o que dirá de agora? Poderíamos ser tanto. Poderíamos. Eu especulo. É ai que crio esse teatro dentro de mim. É ai que te projeto. E uma mistura de repreensão com inspiração me invade. É intuição? É ilusão? O que você significa, hoje, dentro de mim?

Eu não sei direito o que você pensa. Você, tão fechado. Mas vou acabar sabendo, naturalmente, se não na sua voz, na voz do tempo. Porque se não for encontro, será ausência. E  pensando assim me sinto leve. Talvez a gente não tenha mais nada a ver. Talvez eu nunca mais te verei de novo, mesmo morando no mesmo país, na mesma cidade que você; porque o seu caminho pode não pertencer mais ao meu. Como afinal há tanto tempo não pertence. Estar me mudando para perto de você, a maior paixão que já tive, é inevitavelmente atormentador. É por isso que faço tanta cena e alimento tanta idealização. Mas, ainda assim, é leve, como tudo aquilo que não está em minhas mãos; como expectativas jogadas ao vento.

Eu fico aqui imaginando que historia bonita não seria essa, da gente se encontrando depois de tanto tempo, em outro país, em outros corpos, em outra dimensão. Uma possibilidade, apenas. Entre tantas outras.

 

Letting The Cables Sleep – Bush

 

Maneira

Há tempos li um trecho que muito me marcou, talvez de Luft, já não me lembro, que dizia: “Era tão bom estar com ela, porque era leve, e era leve que eu me sentia”. Uma menina falando de sua avó. Disso eu me lembro. Achei tão profundo isso. Por ser raro. Tão raro encontrar essa sensação ao lado de alguém. E é isso que hoje a concepção de bem-estar me arremete: leveza. E eu me aproprio desta definição exatamente ao me lembrar de minha vó; de quando eu era criança e a minha companhia favorita era ela. Lembro-me fortemente de nós duas sentadas no chão de taco de sua casa brincando de “casinha”, e o que me trás essa lembrança é a sensação única que eu sentia: formigamento. Meu corpo todo formigava, como uma perna dormente que já não se sente, que já não pesa. Eu parecia flutuar. Depois que cresci, eu só consegui presenciar esta sensação novamente meditando, em poucas vezes. Nunca mais senti isso através de outro alguém, de outra presença. Essa segurança, esse aconchego, essa leveza. Na verdade, a minha avó sempre fora a precursora de meus sentimentos. Foi com ela, e para ela, que eu disse o meu primeiro e quase único “eu te amo”. Foi com ela, e só com ela, que eu já muito crescida chorei largada em seus braços, naquela cena bem clichê, mas que parece só existir em livros e filmes; ela ali, sentada na cama, abraçando-me, e eu chorando aos soluços aquele tipo de choro que não se deve chorar diante de alguém, porque assusta, porque a gente vê alguém chorando assim e fica sem saber o que fazer ou dizer. Mas ela sabia, sabia que tudo que eu precisava era daqueles braços em volta de mim, segurando-me.

Quando li aquele trecho sobre a leveza, eu imediatamente pensei: eu sou leve? Porque antes de querer que assim me sejam, eu preciso assim ser. Sem dúvidas respondi: não. Acho que sou tudo, menos leve. Mas eu quero ser. Urgentemente quero. Importante frisar que leveza não é a falta de problemas, mas a maneira de se lidar com eles. Lembrei agora de outra cena. Eu estava na longa fila da Caixa Econômica Federal para sacar o fundo de garantia, na minha frente havia uma família: pai, mãe e o filhinho que devia ter uns 8 anos. O pai em certo momento disse ao menino: – E essas unhas aí hein guri? Que coisa feia! Olha como estão sujas! – Mas precisa falar alto pai?! – Precisa sim! Porco! Poooorco! Senhoras e Senhores aqui tem um poooorco! – O pai já falava rindo, e o menino também muito ria, assim como a mãe. Eu também sorria, fascinada em como aquele sermão se transformava em diversão; em leveza.

Hoje, mais do que nunca, eu quero ser uma pessoa melhor; melhor para mim e para os meus. E quando penso em uma maneira para conseguir alcançar isso, é, sem dúvidas, essa leveza que me guia.

 

I just wanted to make you something beautiful – Industries of the Blind

Contratos

Suspeito que antes de começar, deveríamos fazer contratos. Para acabar com essa imposição subentendida de eternidade. Suspeito que é isso que desgasta, ilude, sufoca. Vamos ponderar um tempo assim cabível, contável, possível. Mas isso soa ridículo. Sim, soa. Mas ainda menos ridículo do que essa cobrança insustentável por continuação. Você me diz que não, que quando a gente ama o tempo não existe. E assim queremos acreditar no para sempre. Acho bonito isso, mas do lado de cá, no papel. Vivendo nunca é tão linear. Por isso eu te sugiro, vamos fazer contratos diários. Soa mais saudável. Porque arrisco que seja essa nossa mania absurda de querer controlar o tempo, principalmente o alheio, que nos esgote. Essa distorção de achar que amor só é amor se for inabalável, interminável. Como a ficção mostra. Já na realidade, é essa demanda por perfeição que deforma. Essa possessão por constância. Tão incoerente. Porque a única certeza é a mudança. Por isso promessas já não me soam românticas. Mas claustrofóbicas. Vamos combinar de ser feliz por hoje, por esta semana, até o fim do mês, se der. E depois a gente vai adaptando, transformando. Renovando. E quem sabe assim, preocupados com o trajeto e não com o final, a gente não caminhe por mais tempo. Sem nos cansar. Suspeito que só sendo livres é que conseguiremos nos manter atados. Quem sabe.

 

Sleeping with the Ghosts – Placebo

Sentir Sentimento ou Sensação

Carl Jung define quatro funções mentais agrupas em dois grupos: O grupo racional: Pensamento e Sentimento. E o grupo irracional: Sensação e Intuição. Ele descreve o pensamento como a capacidade de compreensão, o sentimento como a de avaliação, a sensação como percepção consciente e a intuição como percepção inconsciente. Segundo Jung todas estas funções discorrem na mente, mas apenas uma em cada grupo consegue imperar por vez. Interessante a designação do sentimento como um ato racional, mesmo que oscilante ao pensamento. Acho bem lógico isso. Particularmente compreendo que nesta definição o maior confronto com o sentimento seja a sensação; desprovida de racionalização, inserida pela percepção. E afinal sentir costuma ser isso. Quando nos queimamos, por exemplo, a dor é uma constatação imediata; uma sensação. E isso é diferente de sentimento. Quando gostamos de alguém ou de algo, há uma razão para isso, um motivo deliberado. Uma reciprocidade avaliada. E se não houver? Então não é sentimento? Talvez não. Talvez seja só sensação. Ou pior, intuição. Ou ilusão. Algo assim irracional. Inexplicável. Sinto mas não compreendo. E nem avalio. Só sinto porque percebo. Ou só percebo porque sinto. Logo passa.

 

Soundtrack: Xavii – Russian Circles

Pertences

Ando me sentindo uma estranha em casa. Quando percebo estou parada no meio de um cômodo, observando, reparando. Como se este não fosse meu. Então, sinto um aperto assim agudo, acho que no pé, como se correntes invisíveis dos móveis emanassem, e me enroscassem. Eu não precisava de nada disso. De tudo isso. Poderia viver só com uma mala, assim não pesaria tanto. Nem faria tanto pó. Talvez a rinite melhorasse. Mesmo quando me mudar para uma outra casa, quero a vazia. Um colchão assim jogado. A decoração seria o espaço. Espaço. Assim o peito seria mais leve? Talvez. Hoje me sinto tão sufocada. Amarrada. Já não sirvo aqui, em mim.

Uma história Portuguesa

Nesta terça-feira fui ao Consulado de Portugal buscar a minha nacionalidade. Esta era a última parte do processo de cidadania de minha família, o qual iniciei há exatamente 10 anos atrás, em 2006, com 18 anos de idade. Demorou tanto assim por uma por uma relutância absurda de minha avó, a filha dos portugueses. Ela se recusou veemente a mudar os nomes de seus pais do seu RG, após o processo de retificação jurídica destes. E foi exatamente a minha avó quem me ajudou a encontrar o paradeiro dos documentos deles em Portugal, processo que foi muito difícil exatamente pela incompatibilidade dos dados originais com os documentos brasileiros. Situação muito usual. E sem a alteração do seu RG, era totalmente impossível continuar. Eu insisti de todas as maneiras, mas ela foi totalmente intransigente. Assim, o processo ficou paralisado, até ano passado, quando uma voz me infiltrou a mente: tente novamente. E eu tentei. E minha avó cedeu. Então, por fim, concretizei a cidadania de toda a minha família materna, finalizando aqui, nesta semana, com a minha nacionalidade em mãos.

Estou feliz, é claro, mas o momento de agora, a dita chegada, o tal desfecho; nada disso foi o mais importante. Mas sim o percurso, a imensa jornada em busca desta cidadania que mudou a minha vida de tantas maneiras. Como quando fui à Portugal em 2008 buscar as certidões de meus bisavôs, com uma mochila nas costas e todos os sonhos do mundo nos olhos. Esta foi uma das experiências mais fortes de minha vida. Também quando o processo se interrompeu e a minha frustração foi insustentável, foi aí que coloquei outra mochila sobre os ombros, mas desta vez não voltei mais. Fui para São Paulo, onde morei por 4 anos. Fui fugir de minhas dores, reconstruir minhas ruínas. São Paulo foi a morte e o renascimento de todas as minhas partes. A experiência mais profunda de minha vida. Por isso digo, sem exageros, que a busca deste pedaço de plástico que agora tenho em mãos, mudou tudo. Tudo. E isso nada tem a ver com a sua conquista.

Já a tamanha interrupção que ocorreu com a cidadania, isso me ensinou a acreditar e a aceitar que nossas grandes vontades são limitadas por grandes fatalidades, intransponíveis no momento, mas circundáveis se persistidas. Tudo tem o seu tempo, esta é a frase que permeia toda esta jornada, assim como tudo tem o seu motivo. Uma mescla de serenidade e persistência. Um caminho do meio. Uma direção que levou a tantas outras. E moldou uma vida.

O maior valor de ter este documento em mãos, após uma década, é me lembrar de tudo isso, de toda esta voragem. Efeito Borboleta. Ainda parece mentira sabe, quase um sonho que ainda durmo. É tão louco pensar que depois de tanto tempo e tanto tudo, o princípio se transformou fim. Quando eu menos esperava.

Este é o final de uma grande história e o começo de outra muito maior.