4: Não tinha nada ali

Meu vizinho há pouco tempo demoliu a sua casa. Eram duas pequenas casas de madeira em seu terreno, as quais sucumbiram a pó do dia para noite.  Rapidamente uma nova começou a ser levantada, radicalmente diferente: um enorme sobrado de alvenaria. Foi interessante acompanhar assim, diariamente, esse processo; a demolição, a limpeza, o nivelamento do terreno, os pilares, os tijolos dando contorno à construção, o cimento, a pintura… Não me lembro de quanto tempo levou exatamente, mas parece que foi magicamente rápido; parece que há poucos dias não tinha nada ali, e agora há um enorme sobrado quase finalizado. Isso me inspirou muito. Porque eu sinto que na minha vida também aconteceu uma análoga demolição. E é difícil, muito difícil, enxergar uma construção emergindo do terreno vazio, ainda tão destroçado e bagunçado. É passo por passo. Dia por dia.

Já se tornou parte da rotina acordar e dizer: falta um dia a menos para o embarque. A contagem regressiva não é pela expectativa com o futuro, mas pela preocupação com o presente, perante tudo que é preciso ser edificado. Acordar no meio da madruga pelos gritos dos meus pensamentos já é de praxe também. Não está sendo nada fácil. Sinto-me desolada no meio de tanto a se fazer. Muitas vezes me acho prepotente, ou sem senso de realidade. Como se eu estivesse fazendo algo além da minha capacidade. Faltam menos de 3 meses agora, e ainda sinto-me num terreno vazio.

Imprimi um mapa de Montreal, bem detalhado. Coloquei na minha estante de partitura. Bem visível. Salvei uma foto bonita de Montreal em novembro, toda dourada pelo outono. Coloquei como fundo de tela do meu computador. Bem visível. Na psicologia isso é chamado de “reforço positivo”, na física quântica de “lei da atração”, de qualquer forma, acho válido. Como se fosse a planta da casa que orienta a construção. Confesso que ainda tenho dificuldade em visualizar essa mudança. Ainda parece brincadeira. Fantasia. Ainda é muito estranho dizer: Estou me mudando para o Canadá. Como se não fosse verdade. É difícil visualizar o resultado nesse estágio, no meio de tanto entulho e vazio. Mas eu sei que é passo por passo, tijolo por tijolo, dia por dia, e daqui a algum tempo, já perante a obra erguida, eu vou me flagrar dizendo: nossa, não tinha nada aqui.

 

Low – Mark Lanegan

Anúncios

3: Porta Afora

Últimos três meses no Brasil

Estamos em agosto. Como uma vida pode mudar tanto em 8 meses?  Em janeiro desde ano começou esta densa jornada de mudança de país, só que naquele momento a própria mudança não existia. A princípio era só um trabalho voluntário no exterior, ideia que surgiu com o intuito de aproveitar melhor a minha estadia na Europa visitando minha irmã. E de repente tudo mudou: o destino, a duração, o propósito. E cada vez foi mudando mais e mais, atingido o ápice neste mês. Durante todo este ano eu permaneci em uma grande ambivalência em relação à mudança para Montreal. Por um lado eu acreditava fervorosamente que isso daria certo, mas por outro parecia um tiro no escuro. E assim eu continuei a minha vida no Brasil como se (quase) nada estivesse acontecendo. Neste mês as coisas radicalmente mudaram. E eu precisei, de fato, assumir essa escolha. E com isso inciou-se a palpável dissolução da minha vida atual. Comecei a fechar portas. E portas grandes o bastante como a minha faculdade aqui. Ter saído da faculdade por causa da mudança foi um divisor de águas. Eu não ponderava fazer isso. Mesmo sabendo que um ano de graduação não teria serventia lá fora, eu não cogitei antes, em nenhum momento, sair da faculdade antes do término do ano letivo. A faculdade me era uma segurança. Uma certeza. Mas não se pode trilhar dois caminhos ao mesmo tempo. A própria data do final do semestre acadêmico não coincidia com a do início do trabalho em Montreal. Mas eu achei que daria um jeito. Qualquer jeito. Mas não foi possível, por inúmeros motivos. E assim, com a saída da faculdade, veio o peso da escolha que eu fizera. O sacrifício. O medo diante do caminho incerto que me atiro. Eu quase pirei nesse agosto.  E como toda loucura, isso me trouxe um intenso processo de lucidez e autoconhecimento. Montreal surge na minha vida como uma mão externa que me desfaz e me remonta. E agora, mais do que nunca, eu enxergo que antes de tudo existiu a minha voz, chamando por isso.

Neste mês iniciou-se o meu processo de contratação dentro do programa de trabalho no Canadá. Eu estava muito insegura em relação a isso. A aceitação no programa garante uma obtenção de vaga, mas isso me parecia muito teórico e nada certo, já que a minha contração depende de um empregador. Isso inclui um processo de “apadrinhamento de visto”. O empregador torna-se responsável pela minha estadia legal no Canadá. Esse é um programa de trabalho para estrangeiros na área social em ONGs. Posso receber apenas ajuda para moradia e alimentação, não um salário. Mas diferente de um voluntariado, eu estou sendo contratada como uma funcionária com carga horária “full-time”, e assim, entrando no país com objetivo laboral através de um visto de trabalho. Não é difícil imaginar o furacão que está dentro da minha cabeça diante disso. E os receios. Algo muito bom nesse mês foi ter recebido uma proposta de trabalho dentro das minhas expectativas. Foi a segunda que recebi. A primeira eu não aceitei, e me achei louca por isso, com receio que não houvesse outra. E a segunda veio como sob medida. E com isso comprei as passagens. Ida para Montreal. Volta para Portugal. Na teoria, porque na prática até isso mudou.

Ainda há um enorme caminho até chegar o dia do embarque. Possuo dois grandes objetivos que me guiam nessa jornada: continuar os estudos no exterior e conseguir uma renda tocando. Vou começar tocando na rua. E isso será um desafio pessoal imenso. Igualmente os estudos. Irei tentar estudar em Montreal agora. Isso não fazia parte dos planos. E nem sei como posso viabilizar isso no momento. Mas vou tentar, e essa tentativa acarreta muitos preparativos nesta pré-viagem, como tradução juramentada e proficiência. É trabalhoso e pouco certo, mas não me faz sentido ficar todo esse tempo no Canadá de braços cruzados em relação à minha formação acadêmica. E se não der certo, então eu sigo para Portugal, onde possuo cidadania. E a jornada continua. Como sempre deve continuar.

Revendo “O Senhor dos Anéis” eu me deparei com uma frase que sempre me penetrou fundo: “É perigoso sair porta afora, ele costumava dizer. Você pisa na Estrada, e se não controlar os seus pés, não há como saber até onde pode ser levado

Hoje, nesse longo agosto, eu tento alcançar um equilíbrio entre a obstinação de querer controlar o caminho e a emoção de se aventurar, assim, sem saber direito para onde estou indo, e sem querer saber.

 

Garden – Pearl Jam

2: Ir

Confesso que estou com medo do clima. E da língua. E da solidão também.

Confesso que não sei mais fazer mala só de ida. Estou acostumada com a segurança de caixas grandes de mudança, daquelas montáveis que cabem muita coisa, qualquer coisa, a vida toda parece caber ali, embrulhada em papel bolha, com toda a sua fragilidade protegida.

Digito no Google: Como se vestir na neve. Rio de mim mesma. Quanta ansiedade. Digito no Google: Montreal em dezembro. E sinto medo. Um tipo específico de medo. Desolamento. Como quando criança, quando entrava em um lugar desconhecido e, metida como era, saia correndo na frente de todo mundo, até me sentir perdida em um mar de rostos. Aí eu sentava e começava a chorar, tão forte que rapidamente meus pais me encontravam. Mas e agora, quando me sentir perdida em um imensidão branca e desconhecida? Ontem mesmo li algo parecido em um livro de Caio F. Abreu: “Não posso sentir medo. Repetia. Não posso. Porque só tenho a mim.” Medo é chamado.

Coragem. O que é coragem? É defesa? É ímpeto? Neste meu caso, talvez seja buscar o que se quer e reconhecer o que se tem. Porque toda possibilidade é uma dependência de esforços com oportunidades. É pensando assim que surge uma luz que me acalma. Uma visão. Pergunto-me: como eu gostaria de me lembrar daqui a um tempo, em um futuro distante? Gosto de analisar assim. Vou sentir orgulho de mim? Vou me arrepender? Vou dizer: como eu era louca meu deus! Eai, o que vou me dizer? O que hoje digo para a menina que fui? Eu mudaria qual parte do passado, se eu pudesse? Porque você sabe, a vida vai em círculos.

Vai. Uma voz me diz. Talvez vinda do futuro. Talvez um eco do passado. Vai. Esse medo é guia, como um cego que tateia a escuridão, descobrindo os contornos, traçando um caminho. Indo.

 

O Velho e o Moço – Los Hermanos

1: Ciclos

Este é o meu quarto ano em Curitiba. Surge aquela sensação anacrônica de tempo: parece que faz uma vida que moro aqui, mas ao mesmo tempo parece que cheguei semana passada. É bem assustador pensar que estou há quase 4 anos aqui. Quando a gente tenta supor um tempo assim, quase meia década, isso parece tão longo. Mas não é. Passa assim, num estalo. Em São Paulo igualmente fiquei quase 4 anos, três e meio para ser mais exata. Segundo a minha mãe foram 5, ela sempre diz. É que aconteceu coisa demais, explico, aí parece que foi tempo demais. Não, você deve estar se confundindo! – ela rebate – Impossível ter sido só três anos. A gente tenta contabilizar o tempo, mas não dá não. É relativo demais. Fugas o bastante.

Mais uma vez me preparo para deixar uma cidade, uma vida, e um confronto absurdo de sentimentos já me atinge. Já sinto saudade, já sinto medo, já sinto alívio. Eu não imaginava que seria tão cedo. Curitiba eu estabeleci como passagem, nunca pretendi permanecer aqui por muito tempo, mas ainda assim pensava que ficaria um pouco mais. Então, mais do que tudo, estou naquele susto, digerindo uma mudança tão abruta que já começo a vivenciar. Mais uma. Gosto de pensar que me encontro mais preparada para tal travessia, mas sei que não. É sempre tão, tão, difícil, e isso já sei de cor. Mas hoje é sim um pouquinho diferente, pois tenho diferentes necessidades do que antes, e assim, diferentes prioridades. Por exemplo quando estava me mudando para cá, eu tive uma pira grande de querer comprar móveis antigos, e não só isso: coleção de filmes, livros de capa dura, vinis e varias bugigangas nomeadas de enfeites. E hoje o que mais quero é me desfazer de todos os meus pertences! O que dirá quando fui para São Paulo, fiz questão de pintar e decorar toda a minha casa, até o teto (literalmente), para que ficasse a minha cara. Hoje isso me parece a coisa mais insignificante do mundo. Fases. Etapas. Agora também já sei lidar um pouco melhor comigo. Eu costumo estabelecer um ideal forte de perfeição na minha vida, em tudo. Espero demais, quero demais, aposto demais. Não me repreendo por esse exagero, isso é muito ruim por um lado, mas muito bom por outro, assim como tudo. A diferença é que hoje carrego uma serenidade que suporta o meu desespero. Já sei que um recomeço é antes de tudo um parto, com sua dor, seu estranhamento, sua enorme fragilidade. E ao mesmo tempo que sou a mãe que pari e cuida, sou a criança que se inicia.

Conversando agora com a minha mãe sobre a mudança, ela também disse: “Quando você foi para Curitiba você não tinha foco, agora pelo menos é diferente.” É curiosa esta definição subjetiva de foco. Minha mãe diz isso por eu ter vindo para Curitiba sem “nada”; ao contrário do tudo que costuma reger uma mudança de cidade para a maioria: emprego, faculdade, casamento… Não, não foi um fator externo que me trouxe aqui, mas interno. Eu me trouxe aqui. E isso é “falta de foco”. Meteu o loko, dizem. Foi pro outro lado do país sem nada e sem ninguém. Que loucura! Coitada da minha mãe, minha irmã sempre contava como ela ficava sem graça ao tentar explicar o porquê de eu ter ido para Curitiba, ou para São Paulo. Agora ela me olha esperançosa, quase suplicando: não perca o foco! Logo eu que carrego todos os sonhos do mundo. Talvez este seja o problema, querer tanto e assim não me fixar em um só ponto, em um só lugar.

Estou ansiosa para doar todos os meus pertences. Soa tão poético isso: “Doa-se todos os meus pertences”. Vou vender o meu carro. Entregar a minha casa. Ir sem nada. Hoje eu sinto um peso tão grande nas costas, ou talvez seja na sola dos pés. Uma raiz que me puxa pra baixo. Eu consigo imaginar o alívio de colocar a vida numa mala, um violão nas costas e ir. Assim, leve. Porque só os olhos já pesam demais. Nas minhas últimas mudanças eu arrastei uma casa junto. Isso tirou todo o barato. Pra ser andarilho tem que ter o estilo. É você, a estrada e mais nada. Sabe, envelhecer inevitavelmente endurece. Eu não sei se é amargura ou se faz parte do ciclo da vida, assim como em troncos de árvores. Mas para o humano isso costuma fazer muito mais mal do que bem. Porque vira sinônimo de aspereza. Defesa. Um jeito metódico de ser, de querer. Lembra quando éramos adolescentes e pensávamos que podíamos tudo? O que aconteceu com aquilo? Agora temos 30 anos e precisamos de concretude. Precisamos? Eu não quero precisar. A dureza dos meus olhos pede leveza. Alívio. Um vento no rosto, janela de estrada. Partir é preciso. Principalmente de mim.

And yet I find
And yet I find
Repeating in my head
If I can’t be my own
I’d feel better dead.

Nutshell – Alice In Chains