Branco

Duas Semanas em Montreal

Quando o avião se aproximava de Montreal, o chão se tornava branco. Parece óbvio contando assim, mas, daquela altura, eu demorei um tempão para perceber que aquilo era neve. Eu nunca tinha visto neve. Era a primeira neve da estação, ainda tímida, invadindo a cidade.

Antes de vir para cá li um poema que refletia sobre a Lei do Eterno Retorno de Nietsche, dizia: “o meio do meio da vida; o momento em que o que já vivemos é exatamente igual ao que ainda não vivemos.” Seguirei eu os mesmos passos sobre um outro cenário? O que o lado de fora interfere no lado de dentro? Ou vice-versa.

Uma língua que não entendo. Pessoas que não conheço. Branco. Vazio. Durante esses 15 dias eu senti uma oscilação extrema entre liberdade e asfixia. Às vezes me deslumbro, noutras me sinto totalmente perdida.

Amo esse clima. Esse vento cortando a pele, essa fumaça saindo da boca, a neve caindo, acima de tudo a neve caindo.  Hoje fui ao Parque do Mont-Royal. Era o lugar que eu mais queria conhecer, e demorei duas semanas para ir, porque durante todos esses dias fiquei aqui toda louca atrás de casa. Essa mania de trocar o importante pelo urgente, ou seria o contrário? Eu sou obcecada. É uma característica primordial minha que dita todas as outras: dedicação, coragem,  perfeccionismo, teimosia… Quando começo a fazer algo, não consigo parar até terminar. Perco a noção do tempo . E não consigo fazer mais nada.

Fui numa loja indiana comprar um tecido com a imagem de Durga para colocar no meu quarto. Deparo-me com um de Kali, a terrível Kali. Era lindo e barato, sem pensar muito o comprei também.  Chegando em casa me arrependi. Quê pesado ter uma imagem de Kali na parede. Kali é sem dúvida a deidade mais complexa do panteão hindu. Deusa da morte e do tempo. Insaciável por destruição e renovação. Decidi devolver o tecido, mas não cheguei a tempo, a loja já estava fechada. Achei que era um sinal. Voltei pra casa e fui reler o mito da deusa. Kali é tão temida pois representa a sombra de tudo. A parte escura que os olhos não alcançam ou desviam. Kali foi a deusa que derrotou um exercito sanguinário de demônios e salvou assim todos os outros deuses. Deparar-se com Kali é deparar-se com os nossos demônios; ilusões, ego; tudo aquilo que não tem porquê, que só bloqueia e cega. O problema é que não queremos ver esses demônios, não queremos assumir que os possuímos. E assim tememos Kali; tememos a nossa sombra.

Coloquei a imagem de Kali na minha sala, bem visível.  A previsão da próxima semana é -15. O início é branco.

 

The dying of the Light – Noel Gallagher

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Um dia

Estar em Araraquara sempre me arremete a uma imagem da infância: o chão da cozinha da minha casa, eu sentada, encostada na parede, com os joelhos junto ao peito, de olhos fechados, espremidos. Eu tentava visualizar tudo daquilo que eu não conseguia ver. Eu começava a imaginar o que poderia haver além daqueles muros, lá na casa do vizinho, e depois o que haveria além do meu quarteirão, além do meu bairro, da minha cidade, das estradas, do estado, do país. E um desespero enorme me caía. Uma vontade de sair correndo. Um aperto. Uma falta de ar.

Araraquara me era um aquário. Cresci com a obsessão de pular fora da cidade. Pra qualquer lugar. De qualquer jeito. Todos os meus planos, durante toda a minha vida, giraram em torno desse plano de fuga. Qualquer lugar, menos aqui. E o quanto mais longe, melhor.

No meu último ano em Curitiba esse desespero infantil me atingiu. Eu tentava o dissecar, tentando compreender a sua origem. O problema não era a minha rotina, ou a cidade, ou a forma que eu, sobre ela, vivia. Então eu dava os ombros. Achando bobagem. Todos nós possuímos afinal essa vontade súbita de ir embora. “Minha dor não era dor, era só cansaço.” Lispector, se não me engano.

Eu não fui atrás do Canadá. Considero. Eu não cogitava em sair agora de Curitiba, quiçá do Brasil. Mas quando essa oportunidade surgiu, eu me agarrei a ela com tudo que eu tinha e não tinha. É difícil, até pra mim, entender essa atitude tão extrema. Eu estava no momento mais fértil de minha vida. É leve jogar tudo para o alto quando temos muito pouco ou quase nada. Mas eu tinha tanto. E mesmo assim, aquele desespero de ir embora só crescia. Por mais que eu amasse Curitiba, eu já não me sentia em casa. Creio que o maior motivo foi o peso do tempo, da idade. A cada dia me sinto mais velha. Num sentido de possuir menos tempo. E eu cansei de entregar os meus sonhos a um amanhã que se quer sei se existirá. No que depender de mim, será agora. Porque os resultados podem não estar no agora, mas a ação está.

Nessa véspera da maior mudança da minha vida, uma calma absurda me invade. Eu não me sinto indo para outro continente, ao extremo norte. Sinto-me indo pra qualquer lugar aqui do lado, pertinho. O desespero de correr diluído na paz de ir. Eu fortemente acredito que a diferença não está no caminho, mas no caminhante. Na autenticidade do caminhar. É por isso que estou indo, explico-me, acalmo-me. Vou.

 

Cody – Mogwai

DOA-SE

3 sacos de roupas velhas. Mas ainda servem como pele

1 saco de sapatos velhos. Mas ainda servem como chão

5 caixas de utensílios de cozinha, 2 de roupa de cama

3 caixas de livros, 2 de Cds, Dvds, Vinis, fitas cassete

1 caixa de bugigangas inúteis. Vulgo “enfeites”

Tapetes. Cortinas. TV, aparelho de Dvd, liquidificador, aspirador de pó

Já aviso que é tudo muito simples, gasto, antigo. E sujo de mim.

Impressões digitais, memórias, cheiro de incenso. Isso não consegui limpar

Coisa usada é coisa assombrada. Habitada por histórias. Rastros.

Confesso que nas minhas coisas, em particular, há um pouco mais de mim

Porque eu fiz um trato com a vida. Na tentativa difícil de mudar-me de mim

Mudo de casa. De cidade. De país

E deixo-me.

 

Bill and Ben – Catherine Wheel

Umas malas, um monza e 800 km

Decidi sair de Curitiba como cheguei: dirigindo. O destino é Araraquara, minha cidade natal, aonde irei passar as minhas 3 últimas semanas no Brasil. São 800 km, 10 horas de viagem. A princípio eu planejava vender o meu carro aqui e voltar de ônibus. Mas, já que deixei tudo pra última hora, acabou ficando muito em cima para vender o carro. Eu também precisava fazer vários reparos nele antes de vender, se não desvalorizaria demais o veículo. Então, já que estava investindo em manutenção, decidi usufruir disso antes de passá-lo para frente. E fiquei feliz pra caramba com a ideia. Amo pegar estrada. Já passei muito apuro na pista, incluído uma quase morte, mas nada me fez perder a paixão. O mais interessante é o significado disso: o fechamento de um ciclo. Cheguei aqui no meu monza. Partirei daqui dentro dele.

Hoje é domingo, dia 29 de outubro. Falta 1 semana para eu sair de Curitiba e a minha casa está intacta. Não fiz nada ainda. Eu tinha certeza que deixaria tudo pra última hora. Estou um pouco em choque diante a tudo. Paralisada com tanta coisa para fazer, para resolver, sem saber direito por onde começar, como começar. Agora vai ser aquela loucura. Tenho que entregar a cada dia 5. Então, não há mais como enrolar. Uma semana pra desmontar uma casa, uma vida. O que facilita é que vou doar tudo. Tudo. Tirando os meus instrumentos e o meu carro, todos os meus outros pertencer serão doados. A minha vizinha, que a proprietária da minha casa, está me ajudando absurdos nisso. Fizemos um rolo e eu combinei de deixar todos os meus móveis para ela, em troca não vou ter que pagar pela pintura ou nenhum outro reparo da casa. Para mim isso foi uma vantagem imensa, pois eu doaria tudo de qualquer jeito. Ela também se propôs a ficar com todo o resto das minhas coisas, incluindo roupas, sapatos, objetos pessoais… E repartir tudo entre doação pelo bairro e para Ongs.

Estou ansiosa para a chegada desse dia de partida de Curitiba. Ansiosa em todos os sentidos. Isso se tornou um divisor de águas. Não se trata só de deixar Curitiba, cidade onde passei meus últimos 4 anos; trata-se do desapego de uma casa, de um abrigo. Moro sozinha há 10 anos. Tenho uma casa há 10 anos. Partir de Curitiba é partir de uma identidade; é me desprender de todas as minhas coisas, de toda a minha segurança. E não falo só do que existe dentre quatro paredes, mas principalmente de tudo que está do lado de fora. É exatamente isso que torna esta mudança tão abruta. Deixar Curitiba é deixar tudo que cultivei e colhi nesses 4 longos anos. Esta é a parte mais difícil. Deixar um oásis e me atirar numa vazia rodovia. Eu, umas malas, um carro velho. E mais nada.

 

She looks to me – Red Hot Chili Peppers

26 de Outubro

– 30 dias

A quiromancia ensina que os traços da mão esquerda não mudam, só o da direita. O destino muda. O livre arbítrio o faz mudar. Mas antes de tudo, há esse emaranhado de linhas que fincam. Determinam. Elas variam de composição, às vezes são de barbante, outras de aço.

Era novembro de 2012 e eu me preparava para deixar São Paulo. Tive um sonho forte antes de partir. No sonho eu acordava dentro do rio Tietê, boiando em cima de um colchão. A correnteza era forte e me levava. Eu tentava gritar, mas tudo parecia suficientemente longe. Minha voz era um som mudo. Era madrugada, a cidade calada. Uma calma me invadia, como se eu soubesse que nada podia fazer. Não dependia de mim. Parecia. Então eu deitei naquele colchão barco e fiquei, me deixando levar. Adormeci. Acordei assustada pelo forte som de água. A correnteza aumentara, o vento gelado cortava o meu rosto. Blocos de gelo surgiam na água. E começou a nevar. Eu estava longe. Muito longe.

Nunca passei tanto tempo olhando para a palma de minha mão como agora. Fico assim procurando a linha, a exata linha, que me trouxe até aqui. Ela existe? E se sim, pra onde continua?

Montreal me é um extremo de sensações. Uma segurança absurda me invade. Um desolamento absurdo me invade. E assim, os extremos se anulam. Contemplo, apenas. Como se algo maior e um tanto incontrolável me levasse, me guiasse. E eu, como criança frágil, consentisse. Pra onde vamos? Às vezes pergunto. Não há resposta.

 

Little Things – Bush

As ruas que conheci sem ver

O último mês

Acabei antecipando a busca por moradia em Montreal. Queria chegar lá com um lugar certo pra ficar. E ficar de boa. Mas parece tão atípico isso. E louco. Alugar um lugar à distância. Em outro continente. Sem ver. Acho que isso é trauma do passado. Não querer repetir os mesmos erros. Mas isso não me impede de repetir novos. Aí eu já não sei mais. Mas mesmo os erros sendo inevitáveis, quero fazer melhor, errar melhor ao menos.

Nas minhas outras mudanças a procura por um canto para morar foi a parte mais difícil. E demorada, principalmente demorada. Tanto em São Paulo como em Curitiba eu fiquei meses atrás disso, sem conseguir fazer mais nada direito, dedicando todo o meu tempo livre nessa procura por residência. E isso me deixou irada. Esgotada. E quando finalmente consegui arrumar um lugar, veio a outra etapa: torná-lo habitável. Em São Paulo eu não tinha nada, em Curitiba eu arrastei uma casa junto de um estado para o outro. Em ambos os casos foi uma trabalheira só, devo ter ficado uns 4 meses ou mais entre conseguir um aluguel e dar uma jeito no lugar. E já trabalhando, não me sobrava tempo algum livre. Em ambas as vezes achei isso uma baita insignificância. Extravagância. Perda de tempo. Podia ser tão mais simples, tão mais fácil… Podia?

A decisão de sair do Brasil já com um aluguel arranjado também tem o seu preço, e o seu peso. Faz duas semanas que estou imersa nesta procura, desprendendo um tempo enorme para isso. E sinto-me trocando os pés pelas mãos. No ímpeto de querer simplificar, complico.

O que eu queria era chegar lá com um canto certo para ficar, perto do meu trabalho, numa rua calma. Ir numa loja de móveis usados, comprar um colchão, uma mesa, duas cadeiras e só. E pronto. E começar o mais cedo possível a dedicar o meu tempo praquilo que realmente importa. Porque cada vez mais me sinto com menos tempo. E não quero desperdiçá-lo.

Qualquer jeito acarreta dois lados. Vai ser difícil, vai ser significante. De maneira diferente, mas com igual equivalência. Nesta atual e precipitada procura, um ganho grande foi a vivência de Montreal, de suas ruas. Já as conheço de cor. Nessa atividade diária de procurar moradia, colocar no Google pra ver onde fica, visualizar, ligar os pontos. Um mapa mental. Montreal tornou-se virtualmente íntima para mim. Seus bairros, seus traços, suas particularidades. A divisão engraçada entre áreas inglesas, francesas, estrangeiras… Já até defini os meus parques preferidos. Tudo assim, sem ver. Como conhecer alguém especial pela internet, e ficar dias conversando à distância, vendo fotos, descobrindo detalhes. Construindo um laço. Montreal e eu.

 

Supersonic – Noel Gallagher

4: Não tinha nada ali

Meu vizinho há pouco tempo demoliu a sua casa. Eram duas pequenas casas de madeira em seu terreno, as quais sucumbiram a pó do dia para noite.  Rapidamente uma nova começou a ser levantada, radicalmente diferente: um enorme sobrado de alvenaria. Foi interessante acompanhar assim, diariamente, esse processo; a demolição, a limpeza, o nivelamento do terreno, os pilares, os tijolos dando contorno à construção, o cimento, a pintura… Não me lembro de quanto tempo levou exatamente, mas parece que foi magicamente rápido; parece que há poucos dias não tinha nada ali, e agora há um enorme sobrado quase finalizado. Isso me inspirou muito. Porque eu sinto que na minha vida também aconteceu uma análoga demolição. E é difícil, muito difícil, enxergar uma construção emergindo do terreno vazio, ainda tão destroçado e bagunçado. É passo por passo. Dia por dia.

Já se tornou parte da rotina acordar e dizer: falta um dia a menos para o embarque. A contagem regressiva não é pela expectativa com o futuro, mas pela preocupação com o presente, perante tudo que é preciso ser edificado. Acordar no meio da madruga pelos gritos dos meus pensamentos já é de praxe também. Não está sendo nada fácil. Sinto-me desolada no meio de tanto a se fazer. Muitas vezes me acho prepotente, ou sem senso de realidade. Como se eu estivesse fazendo algo além da minha capacidade. Faltam menos de 3 meses agora, e ainda sinto-me num terreno vazio.

Imprimi um mapa de Montreal, bem detalhado. Coloquei na minha estante de partitura. Bem visível. Salvei uma foto bonita de Montreal em novembro, toda dourada pelo outono. Coloquei como fundo de tela do meu computador. Bem visível. Na psicologia isso é chamado de “reforço positivo”, na física quântica de “lei da atração”, de qualquer forma, acho válido. Como se fosse a planta da casa que orienta a construção. Confesso que ainda tenho dificuldade em visualizar essa mudança. Ainda parece brincadeira. Fantasia. Ainda é muito estranho dizer: Estou me mudando para o Canadá. Como se não fosse verdade. É difícil visualizar o resultado nesse estágio, no meio de tanto entulho e vazio. Mas eu sei que é passo por passo, tijolo por tijolo, dia por dia, e daqui a algum tempo, já perante a obra erguida, eu vou me flagrar dizendo: nossa, não tinha nada aqui.

 

Low – Mark Lanegan

3: Porta Afora

Últimos três meses no Brasil

Estamos em agosto. Como uma vida pode mudar tanto em 8 meses?  Em janeiro desde ano começou esta densa jornada de mudança de país, só que naquele momento a própria mudança não existia. A princípio era só um trabalho voluntário no exterior, ideia que surgiu com o intuito de aproveitar melhor a minha estadia na Europa visitando minha irmã. E de repente tudo mudou: o destino, a duração, o propósito. E cada vez foi mudando mais e mais, atingido o ápice neste mês. Durante todo este ano eu permaneci em uma grande ambivalência em relação à mudança para Montreal. Por um lado eu acreditava fervorosamente que isso daria certo, mas por outro parecia um tiro no escuro. E assim eu continuei a minha vida no Brasil como se (quase) nada estivesse acontecendo. Neste mês as coisas radicalmente mudaram. E eu precisei, de fato, assumir essa escolha. E com isso inciou-se a palpável dissolução da minha vida atual. Comecei a fechar portas. E portas grandes o bastante como a minha faculdade aqui. Ter saído da faculdade por causa da mudança foi um divisor de águas. Eu não ponderava fazer isso. Mesmo sabendo que um ano de graduação não teria serventia lá fora, eu não cogitei antes, em nenhum momento, sair da faculdade antes do término do ano letivo. A faculdade me era uma segurança. Uma certeza. Mas não se pode trilhar dois caminhos ao mesmo tempo. A própria data do final do semestre acadêmico não coincidia com a do início do trabalho em Montreal. Mas eu achei que daria um jeito. Qualquer jeito. Mas não foi possível, por inúmeros motivos. E assim, com a saída da faculdade, veio o peso da escolha que eu fizera. O sacrifício. O medo diante do caminho incerto que me atiro. Eu quase pirei nesse agosto.  E como toda loucura, isso me trouxe um intenso processo de lucidez e autoconhecimento. Montreal surge na minha vida como uma mão externa que me desfaz e me remonta. E agora, mais do que nunca, eu enxergo que antes de tudo existiu a minha voz, chamando por isso.

Neste mês iniciou-se o meu processo de contratação dentro do programa de trabalho no Canadá. Eu estava muito insegura em relação a isso. A aceitação no programa garante uma obtenção de vaga, mas isso me parecia muito teórico e nada certo, já que a minha contração depende de um empregador. Isso inclui um processo de “apadrinhamento de visto”. O empregador torna-se responsável pela minha estadia legal no Canadá. Esse é um programa de trabalho para estrangeiros na área social em ONGs. Posso receber apenas ajuda para moradia e alimentação, não um salário. Mas diferente de um voluntariado, eu estou sendo contratada como uma funcionária com carga horária “full-time”, e assim, entrando no país com objetivo laboral através de um visto de trabalho. Não é difícil imaginar o furacão que está dentro da minha cabeça diante disso. E os receios. Algo muito bom nesse mês foi ter recebido uma proposta de trabalho dentro das minhas expectativas. Foi a segunda que recebi. A primeira eu não aceitei, e me achei louca por isso, com receio que não houvesse outra. E a segunda veio como sob medida. E com isso comprei as passagens. Ida para Montreal. Volta para Portugal. Na teoria, porque na prática até isso mudou.

Ainda há um enorme caminho até chegar o dia do embarque. Possuo dois grandes objetivos que me guiam nessa jornada: continuar os estudos no exterior e conseguir uma renda tocando. Vou começar tocando na rua. E isso será um desafio pessoal imenso. Igualmente os estudos. Irei tentar estudar em Montreal agora. Isso não fazia parte dos planos. E nem sei como posso viabilizar isso no momento. Mas vou tentar, e essa tentativa acarreta muitos preparativos nesta pré-viagem, como tradução juramentada e proficiência. É trabalhoso e pouco certo, mas não me faz sentido ficar todo esse tempo no Canadá de braços cruzados em relação à minha formação acadêmica. E se não der certo, então eu sigo para Portugal, onde possuo cidadania. E a jornada continua. Como sempre deve continuar.

Revendo “O Senhor dos Anéis” eu me deparei com uma frase que sempre me penetrou fundo: “É perigoso sair porta afora, ele costumava dizer. Você pisa na Estrada, e se não controlar os seus pés, não há como saber até onde pode ser levado

Hoje, nesse longo agosto, eu tento alcançar um equilíbrio entre a obstinação de querer controlar o caminho e a emoção de se aventurar, assim, sem saber direito para onde estou indo, e sem querer saber.

 

Garden – Pearl Jam

2: Ir

Confesso que estou com medo do clima. E da língua. E da solidão também.

Confesso que não sei mais fazer mala só de ida. Estou acostumada com a segurança de caixas grandes de mudança, daquelas montáveis que cabem muita coisa, qualquer coisa, a vida toda parece caber ali, embrulhada em papel bolha, com toda a sua fragilidade protegida.

Digito no Google: Como se vestir na neve. Rio de mim mesma. Quanta ansiedade. Digito no Google: Montreal em dezembro. E sinto medo. Um tipo específico de medo. Desolamento. Como quando criança, quando entrava em um lugar desconhecido e, metida como era, saia correndo na frente de todo mundo, até me sentir perdida em um mar de rostos. Aí eu sentava e começava a chorar, tão forte que rapidamente meus pais me encontravam. Mas e agora, quando me sentir perdida em um imensidão branca e desconhecida? Ontem mesmo li algo parecido em um livro de Caio F. Abreu: “Não posso sentir medo. Repetia. Não posso. Porque só tenho a mim.” Medo é chamado.

Coragem. O que é coragem? É defesa? É ímpeto? Neste meu caso, talvez seja buscar o que se quer e reconhecer o que se tem. Porque toda possibilidade é uma dependência de esforços com oportunidades. É pensando assim que surge uma luz que me acalma. Uma visão. Pergunto-me: como eu gostaria de me lembrar daqui a um tempo, em um futuro distante? Gosto de analisar assim. Vou sentir orgulho de mim? Vou me arrepender? Vou dizer: como eu era louca meu deus! Eai, o que vou me dizer? O que hoje digo para a menina que fui? Eu mudaria qual parte do passado, se eu pudesse? Porque você sabe, a vida vai em círculos.

Vai. Uma voz me diz. Talvez vinda do futuro. Talvez um eco do passado. Vai. Esse medo é guia, como um cego que tateia a escuridão, descobrindo os contornos, traçando um caminho. Indo.

 

O Velho e o Moço – Los Hermanos

1: Ciclos

Este é o meu quarto ano em Curitiba. Surge aquela sensação anacrônica de tempo: parece que faz uma vida que moro aqui, mas ao mesmo tempo parece que cheguei semana passada. É bem assustador pensar que estou há quase 4 anos aqui. Quando a gente tenta supor um tempo assim, quase meia década, isso parece tão longo. Mas não é. Passa assim, num estalo. Em São Paulo igualmente fiquei quase 4 anos, três e meio para ser mais exata. Segundo a minha mãe foram 5, ela sempre diz. É que aconteceu coisa demais, explico, aí parece que foi tempo demais. Não, você deve estar se confundindo! – ela rebate – Impossível ter sido só três anos. A gente tenta contabilizar o tempo, mas não dá não. É relativo demais. Fugas o bastante.

Mais uma vez me preparo para deixar uma cidade, uma vida, e um confronto absurdo de sentimentos já me atinge. Já sinto saudade, já sinto medo, já sinto alívio. Eu não imaginava que seria tão cedo. Curitiba eu estabeleci como passagem, nunca pretendi permanecer aqui por muito tempo, mas ainda assim pensava que ficaria um pouco mais. Então, mais do que tudo, estou naquele susto, digerindo uma mudança tão abruta que já começo a vivenciar. Mais uma. Gosto de pensar que me encontro mais preparada para tal travessia, mas sei que não. É sempre tão, tão, difícil, e isso já sei de cor. Mas hoje é sim um pouquinho diferente, pois tenho diferentes necessidades do que antes, e assim, diferentes prioridades. Por exemplo quando estava me mudando para cá, eu tive uma pira grande de querer comprar móveis antigos, e não só isso: coleção de filmes, livros de capa dura, vinis e varias bugigangas nomeadas de enfeites. E hoje o que mais quero é me desfazer de todos os meus pertences! O que dirá quando fui para São Paulo, fiz questão de pintar e decorar toda a minha casa, até o teto (literalmente), para que ficasse a minha cara. Hoje isso me parece a coisa mais insignificante do mundo. Fases. Etapas. Agora também já sei lidar um pouco melhor comigo. Eu costumo estabelecer um ideal forte de perfeição na minha vida, em tudo. Espero demais, quero demais, aposto demais. Não me repreendo por esse exagero, isso é muito ruim por um lado, mas muito bom por outro, assim como tudo. A diferença é que hoje carrego uma serenidade que suporta o meu desespero. Já sei que um recomeço é antes de tudo um parto, com sua dor, seu estranhamento, sua enorme fragilidade. E ao mesmo tempo que sou a mãe que pari e cuida, sou a criança que se inicia.

Conversando agora com a minha mãe sobre a mudança, ela também disse: “Quando você foi para Curitiba você não tinha foco, agora pelo menos é diferente.” É curiosa esta definição subjetiva de foco. Minha mãe diz isso por eu ter vindo para Curitiba sem “nada”; ao contrário do tudo que costuma reger uma mudança de cidade para a maioria: emprego, faculdade, casamento… Não, não foi um fator externo que me trouxe aqui, mas interno. Eu me trouxe aqui. E isso é “falta de foco”. Meteu o loko, dizem. Foi pro outro lado do país sem nada e sem ninguém. Que loucura! Coitada da minha mãe, minha irmã sempre contava como ela ficava sem graça ao tentar explicar o porquê de eu ter ido para Curitiba, ou para São Paulo. Agora ela me olha esperançosa, quase suplicando: não perca o foco! Logo eu que carrego todos os sonhos do mundo. Talvez este seja o problema, querer tanto e assim não me fixar em um só ponto, em um só lugar.

Estou ansiosa para doar todos os meus pertences. Soa tão poético isso: “Doa-se todos os meus pertences”. Vou vender o meu carro. Entregar a minha casa. Ir sem nada. Hoje eu sinto um peso tão grande nas costas, ou talvez seja na sola dos pés. Uma raiz que me puxa pra baixo. Eu consigo imaginar o alívio de colocar a vida numa mala, um violão nas costas e ir. Assim, leve. Porque só os olhos já pesam demais. Nas minhas últimas mudanças eu arrastei uma casa junto. Isso tirou todo o barato. Pra ser andarilho tem que ter o estilo. É você, a estrada e mais nada. Sabe, envelhecer inevitavelmente endurece. Eu não sei se é amargura ou se faz parte do ciclo da vida, assim como em troncos de árvores. Mas para o humano isso costuma fazer muito mais mal do que bem. Porque vira sinônimo de aspereza. Defesa. Um jeito metódico de ser, de querer. Lembra quando éramos adolescentes e pensávamos que podíamos tudo? O que aconteceu com aquilo? Agora temos 30 anos e precisamos de concretude. Precisamos? Eu não quero precisar. A dureza dos meus olhos pede leveza. Alívio. Um vento no rosto, janela de estrada. Partir é preciso. Principalmente de mim.

And yet I find
And yet I find
Repeating in my head
If I can’t be my own
I’d feel better dead.

Nutshell – Alice In Chains