Ser Água

Não quero ser amarga. Digo-me. Porque muitas vezes sou. Mas ando repetindo como um mantra. Não quero ser amarga. Quando me machuco, quando me engano, quando me perco. Amargura é tristeza aprisionada. Feita de escudo. Quero ser água. Diluir. Fluir. Sem medo da próxima queda. Quero ser cachoeira. Saltar. Libertar. Não vou deixar a vida me aprisionar. Nem a dor me endurecer. Por isso repito. Quero ser água. Correnteza. Fluxo que nenhuma rocha detém. E que nenhuma rocha precise esmagar para continuar. Basta escorrer. Verter. E não guardar, pesar, afundar.  Mas transbordar. Perdoar. Transcender. Ser maior. Ser além. Até renascer oceano.

Vestido Branco

É pra fazer listinha sim! Até promessa ou simpatia
É pra achar que tudo pode ser diferente. Porque pode
É pra querer mudar tudo aquilo que atrofia. Pedras por asas
É pra sonhar muito, querer muito. Altas expectativas por favor!

É pra querer trocar todo conformismo por esperanças desmedidas
Todo descontentamento por ação. Todo lamento por superação.
É pra deixar de ser amargo pra ser leve. Tristeza é passagem
Deixa passar.

É pra querer ser diferente, ser melhor, ser maior, ser o que quiser
O mundo já está tão cheio de resignados. Aprisionados
É pra pensar grande mesmo e acreditar sem medo
Só fracassa quem se entrega à própria infelicidade.

Tudo pode ser de outra maneira se a gente quiser
E fizer.

Pertences

Ando me sentindo uma estranha em casa. Quando percebo estou parada no meio de um cômodo, observando, reparando. Como se este não fosse meu. Então, sinto um aperto assim agudo, acho que no pé, como se correntes invisíveis dos móveis emanassem, e me enroscassem. Eu não precisava de nada disso. De tudo isso. Poderia viver só com uma mala, assim não pesaria tanto. Nem faria tanto pó. Talvez a rinite melhorasse. Mesmo quando me mudar para uma outra casa, quero a vazia. Um colchão assim jogado. A decoração seria o espaço. Espaço. Assim o peito seria mais leve? Talvez. Hoje me sinto tão sufocada. Amarrada. Já não sirvo aqui, em mim.

Véus

Acordo forte
Pego o celular: 5:55
Isso foi ontem
Acordo forte
Pego o celular: 5:55
Isso foi hoje.

Estou num cemitério antigo
Descalça
Sinto nojo disso
Como se algo penetrasse pelos pés
Chove forte
Sinto alívio
Como se a chuva viesse por baixo
Uso uma longa saia branca que se arrasta
Deixando rastros
Uma menina aparece
Ela não está viva
Eu paraliso
Ela se aproxima
Bem perto
Coloca a mão no meu peito e diz:
Toma. Agora é seu
Desaparece.

Acordo forte…

Pretérito Imperfeito

Trilha: Graveyard – Slow Motion Countdown

Ainda estou nesse metrô
Com os meus 20 anos
Indo pra algum lugar que nunca sei
Sempre perdida nessa cidade sem fim
São Paulo me é liberdade e exílio
Chegada e Partida
Qualquer coisa extrema e irreversível
Um ferro quente sobre a pele.

Ainda há esse nó na garganta
Esses olhos marejados
Esse peito rasgado
Meu ser invadido, exaltado
Desespero transbordado
Minhas fantasias urgentes
Vontade louca de dilacerar o mundo
São Paulo me parece o centro de tudo.

A minha estação chega
Ao sair esbarro em mim
E me vou.

Trovoa

Você precisa ser mais leve
Menos passional
Surtada. Surtada!
Você sufoca.
Não serve pra ser amiga.
Uma grossa. Faca na manteiga.
Dona da razão.
Precisa sempre vomitar suas verdades
Não pedi sua opinião. A vida é minha.
Um bom amigo só ouve
Um bom amigo alegra
Você derruba
Soterra
Fatídica!
Precisa levar tudo tão a sério
Criticar tudo. Debater tudo.
Você fala demais. Só dá sermão,
Arrogante.
Não serve pra ser amiga.
Não serve.
Você trovoa.
Eu quero um céu limpo
Você trovoa.
Não é chuva que acalma
É tempestade que estronda.
Você trovoa.
Afugenta.

Durga

Tenho Durga como escudo
Arquétipo de força
Egrégora de proteção
Espírito de fogo.
Meus deuses são internos
Vivem nos olhos
Escorrem pelo sangue
Soltam libido na pele
Sinto Durga nas unhas
No arrepio da espinha
Na fúria de persistir
Na segurança de abstrair
Na certeza que sou maior
E nada pode me atingir
E nada pode me atingir
Eu sou Durga.

Ventríloquo

Gostava de sentir vontade de ir ao banheiro. Segurava ao máximo. Quase fazia nas calças. Mas era aquela sensação de alívio que buscava. Algo saindo, libertando, tranquilizando. Momento raro.

Também tinha suas manias de organização. Precisava de algum controle. Algum pequeno domínio no meio de sua desordem infinita.

Mudava a cor dos cabelos toda semana. Quem sabe mudando por fora, também conseguia mudar por dentro.

Comia muito para se encher. Preencher aquele vazio que ecoa. Ecoa. Ecoa…

Bebia muito para se esquecer. Só conseguir se divertir quando já não se sentia.

Principalmente, tinha uma total possessão com seus relacionamentos. Precisava de muita atenção, exclusividade. Não conseguia cuidar então precisava que alguém cuidasse. Aliviasse. Preenchesse.
Tudo que precisava era um sentido para a vida que já não conseguia justificar.

Lateja

Tem alguém atrás de mim gritando
Tem a minha voz esse grito
Peço para ir embora
Não consigo – diz
Peço para ficar quieto
Não consigo.
Minha cabeça dói muito
Deve ser por causa desses berros!
Te escuro, te ignoro
Mas você só grita
Um silêncio que não alcanço
Uma paz que não habito
Minhas veias estouradas
Minha vida sangrada
Lateja.

Espelhos

As pessoas são dependentes de espelhos
Para que consigam se ver
Sem reflexo, não há visão
É por isso que não suportamos a diferença
Porque a diferença não reflete, mas encobre
Porque não é superfície, mas profundidade
Território desconhecido, vastidão inexplorada
Incertezas
Detestamos incertezas
Queremos terra firme, território demarcado
Confinado.

A certeza só está certa se reconhecida
Queremos nos ver refletidos, projetados
Porque estamos certos
A minha opção sexual, a minha religião
O meu Deus único
Certezas refletidas, impostadas
Estreitas superfícies
Não suportamos o todo
Porque nos sentimos pequenos.

As pessoas são dependentes de reflexos
Para que consigam saber quem são.