Presságio

Sonhei que chovia, acordei, chovia.
Sonhei que a porta estava aberta, e estava.
Sonhei que minha irmã passava por problemas, e passava.
Especulo que meu inconsciente saiba de coisas que não sei
É só quando durmo, e desconecto de mim, que escuto
Essa minha voz sem voz.
E meus sonhos lúcidos?
Os meus desejos. Vontades. Planos.
Como surgem? O que são?
O que sonho acordada também é presságio? Por isso sonho?
Como desenho meus desejos?
Seria também essa voz cavernosa que me dita? Guia-me?

Fechos os olhos. Acordada.
Sonho.
Deixo-me sonhar.
Hoje entendo que a razão não alcança certas profundidades.

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Você me perde

Quando eu te digo: estou lendo um livro
E você pergunta o nome. Eu digo.
Você muda de assunto.
Eu volto: Então, o livro é sobre…
Hã. E retoma o seu assunto
Eu desisto.
Quando a gente assiste um filme
Eu te pergunto: O que você achou?
Você diz: Legal.
Eu começo a comentar qualquer cena
Você muda de assunto.
Eu volto: Mas você não acha que..
Hã. E retoma o seu assunto
Eu desisto.
Quando eu te mostro algo que tô fazendo
E você diz: Legal.
E eu sinto que tá péssimo.
Ou quando você não comenta nada
Em pouco tempo eu desisto de perguntar
Porque você não se importa
E pouco a pouco vou deixando de me importar
Comigo. Contigo. Conosco.
Você não quer uma conexão. Quer atenção.
Eu sou platéia
Quieta. Contemplativa.
Já me esqueci
Porque primeiro a gente desiste de si
Perde-se.
Só depois, é que desistimos do outro
Só depois do depois.
Quando a gente se lembra.

You don’t need me

You need the attention I give you
The way I make you feel special
Like a king.
You don’t need me
You need someone adoring you
Desiring you
Lighting you
You need me when I am shining
But I, my dear, I am dark. I am deep.
You don’t even know how to swim
You like the lightness of my superficiality
All that I am not.
I am heavy. I am hard. I am black.
You don’t need me.
You don’t even like me.
You like my silly smile, my bright eyes
The shape of my nose and butt
My Surface.
My cover.
My pages, you will not read.
It’s too big. It’s too much.
That’s why I know
You don’t need me
You don’t even like me.
You should know.

Palco

Compro dois pacotes de luzes pisca-pisca
Para criar um cenário
Onde eu possa atuar
E esquecer de toda a insegurança que sou
Um pacote de luzes para colocar em volta do microfone
Outro em volta de uma tela cuidadosamente pintada à mão:
I’m Aline Castanhari, thank you for supporting
Forro a case do violão com um veludo roxo, assim em chamativo
Imprimo cartões de visita, assim bem profissional.
Soa poético e patético esse contraste. Todo esse luxo sob um chão frio.
Investi caro. Gastei o dinheiro que tinha e que não tinha.
Amplificador portátil de qualidade. Microfone especial.
Há a vantagem de se estar “aqui”, e tudo isso ser bem acessível.
Há a vantagem de se estar “aqui”, e poder ser artista de rua.
Poder é ser? Posso? Sou ?
Precisa acreditar que sim.
Por isso monto um cenário, visto um personagem: Musicista profissional.
Vendo-me.
Porque a minha música sou eu.
E eu demorei para entender isso. Pra fazer isso.
Hoje entendi: preciso desesperadamente fazer isso. Ser isso.
E já que nem sou artista e nem tenho palco
Vou pra rua. Forjando o meu próprio espetáculo.
Até ser.

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Você não me Salva

No final do dia quando eu não acredito mais em mim
Nas minhas tentativas desesperadas e frustadas
Na minha necessidade de me virar por fora
Porque eu estou dentro
Você fora
Você não me vê
E eu me perco todas às vezes
Buscando o meu reflexo nos seus olhos
Mas eu não me vejo.

Você não me salva
Do peso da minha solidão
Do nó da minha garganta
Das unhas quebradas de tanto cavar
Para você eu sou duas partes
A sua e a minha
Cuide-se você diz
Porque você não vai cuidar de mim

Quanto mais me salvar
De mim.

 

Alone – Depeche Mode

Preciso de uma bicicleta

Para resolver a vida
Tornando-a mais lenta.
Ando pegando muito metrô sabe
Não consigo ver o caminho assim
Nessa conexão veloz entre destinos fixos
Porque a chegada é sempre parada
Perco o movimento na pressa do dia-a-dia.

Preciso de uma bicicleta
Pra sair mais cedo de casa
Sentir o vento batendo no rosto
Virar a esquina errada
Descobrir uma rua nova
Preciso cansar o corpo pra silenciar a mente
Tão assustada no meio da multidão desesperada.

Preciso de uma bicicleta pra resolver a vida
Porque a vida se resolve assim
Nos detalhes
Nas sutilezas que nos carregam
Pequeninas escolhas que formatam o dia
Talvez não pra onde se vai
Mas como se vai
Preciso de freios sobre a estrada.

Eufemismo

Descubro que meu amor é vontade de amar
Como se pelo cansaço da procura eu me entregasse
Pedindo, pedindo, implorando alívio
Deixa-me estacionar aqui, em você, deixa-me descansar
Mas a cada dia, o sossego é substituído por confinamento
Como se eu tentasse chegar ao mar
Você é continente, com altas montanhas nos confins
Tampando os meus horizontes.
Mas também é terra firme, segurança, estabilidade
Penso: quanta gente não gostaria de chegar aqui
E me sinto mal por não valorizar esse espaço coberto
Entre desertos e desertos que atravessei
Sinto-me acolhida aqui. Sinto-me agradecida
Você é oásis
Mas eu, meu bem, sou desassossego. Desespero. Voragem
E solidão, acima de tudo. Às vezes com orgulho, muitas com dor
Então eu sei, com certo aperto
Você não é abrigo, é alívio
Que eu pedia
E encontrei.
Descubro que meu amor é vontade de amar.

 

Precisava de você aqui

Rindo dos meus conflitos inúteis. Dizendo-me assim, num tom terno de deboche: Mas como você é dramática!

Ando preocupada demais, assim, só comigo.

Precisava de você aqui

Rindo das minhas pergunta excessivas sobre o seu dia, sua vida, seus pensamentos. Dizendo-me assim, meio assustado, meio achando graça: Meu deus, como você é curiosa, ninguém pergunta isso!

Precisava também te contar as histórias que vejo, ouço, vivo. Sinto que as desperdiço assim, guardando pra mim.

Ando me engasgando com as palavras. Empurrando-as pra dentro.

Precisava de você me criticando. Dizendo que estou errada. Assim, na minha cara. Como ninguém faz. Só você.

Você, que levou uma parte de mim. Você, que não encontro em mais ninguém.

Precisar de você é precisar de mim.

 

Before We Dissapear – Chris Cornell

Cuidar-me

Rejeitada, errada, envergonhada
Sentia-me
Resolvi ir limpar a casa pra distrair a cabeça
Sinto-me tão a minha mãe nessas horas
Mas a casa realmente estava imunda
E eu precisava renovar as energias.
Coloquei um álbum ao vivo de um cantor favorito, bem alto
E me lembrei de como isso transforma a faxina em euforia
Principalmente pela disputa não verbalizada com o cantor
Pra ver quem canta mais alto.
Depois fiz do banheiro um SPA
Depilação, argila na cara, hidratação no cabelo
Casa bonita. Corpo bonito.
Senti-me renovada
Mas ainda faltava cuidar da alma
Acendi duas velas e um incenso
Conversei com o Universo
Pedi forte por discernimento
Pra saber quando persistir e quando desistir
Mediante tudo aquilo que não cabe a mim
Ou que não vale a pena.
Fiz chocolate quente
Acertei o despertador pra bem cedo
Amanhã é dia de fazer melhor, ser melhor
Acreditar melhor
Dormi.

 

Choke – Aline in Chains