Precisava de você aqui

Rindo dos meus conflitos inúteis. Dizendo-me assim, num tom terno de deboche: Mas como você é dramática!

Ando preocupada demais, assim, só comigo.

Precisava de você aqui

Rindo das minhas pergunta excessivas sobre o seu dia, sua vida, seus pensamentos. Dizendo-me assim, meio assustado, meio achando graça: Meu deus, como você é curiosa, ninguém pergunta isso!

Precisava também te contar as histórias que vejo, ouço, vivo. Sinto que as desperdiço assim, guardando pra mim.

Ando me engasgando com as palavras. Empurrando-as pra dentro.

Precisava de você me criticando. Dizendo que estou errada. Assim, na minha cara. Como ninguém faz. Só você.

Você, que levou uma parte de mim. Você, que não encontro em mais ninguém.

Precisar de você é precisar de mim.

 

Before We Dissapear – Chris Cornell

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Cuidar-me

Rejeitada, errada, envergonhada
Sentia-me
Resolvi ir limpar a casa pra distrair a cabeça
Sinto-me tão a minha mãe nessas horas
Mas a casa realmente estava imunda
E eu precisava renovar as energias.
Coloquei um álbum ao vivo de um cantor favorito, bem alto
E me lembrei de como isso transforma a faxina em euforia
Principalmente pela disputa não verbalizada com o cantor
Pra ver quem canta mais alto.
Depois fiz do banheiro um SPA
Depilação, argila na cara, hidratação no cabelo
Casa bonita. Corpo bonito.
Senti-me renovada
Mas ainda faltava cuidar da alma
Acendi duas velas e um incenso
Conversei com o Universo
Pedi forte por discernimento
Pra saber quando persistir e quando desistir
Mediante tudo aquilo que não cabe a mim
Ou que não vale a pena.
Fiz chocolate quente
Acertei o despertador pra bem cedo
Amanhã é dia de fazer melhor, ser melhor
Acreditar melhor
Dormi.

 

Choke – Aline in Chains

Frio

Você ainda vai ficar sozinha menina. Por esse seu jeito, nesse seu rumo.
Sem amigos, sem família, sem companheiro. Vai passar dias e dias ao som da própria voz.
Vai saber o que é chorar de solidão, não por sentir-se sozinha, mas por estar só.
Sem ninguém pra contar. Só. Como a gente nunca imagina um dia estar.
Nem se quer contatos virtuais. Nem colegas formais. Ninguém.
Uma solidão que não é sensação, mas constatação. Condição.
Esse dia tardou, tardou, mas com tudo chegou.
É que antes você vivia disfarçando esse buraco com os seus romances. Um atrás do outro.
Até que cansou. Arriscando que a solidão afinal seria mais autêntica.
Não imaginava esse aperto. Essa asfixia.
Cada palavra não diga que desce esfolando a garganta, machucando o peito.
Cada imagem sua detida no espelho.
Você tinha que descobrir que precisamos de outros olhos para nos refletir.
O frio chega forte em julho
Aos poucos se acostuma.

 

Creep – Stone Temple Pilots

Ser Água

Não quero ser amarga. Digo-me. Porque muitas vezes sou. Mas ando repetindo como um mantra. Não quero ser amarga. Quando me machuco, quando me engano, quando me perco. Amargura é tristeza aprisionada. Feita de escudo. Quero ser água. Diluir. Fluir. Sem medo da próxima queda. Quero ser cachoeira. Saltar. Libertar. Não vou deixar a vida me aprisionar. Nem a dor me endurecer. Por isso repito. Quero ser água. Correnteza. Fluxo que nenhuma rocha detém. E que nenhuma rocha precise esmagar para continuar. Basta escorrer. Verter. E não guardar, pesar, afundar.  Mas transbordar. Perdoar. Transcender. Ser maior. Ser além. Até renascer oceano.

Vestido Branco

É pra fazer listinha sim! Até promessa ou simpatia
É pra achar que tudo pode ser diferente. Porque pode
É pra querer mudar tudo aquilo que atrofia. Pedras por asas
É pra sonhar muito, querer muito. Altas expectativas por favor!

É pra querer trocar todo conformismo por esperanças desmedidas
Todo descontentamento por ação. Todo lamento por superação.
É pra deixar de ser amargo pra ser leve. Tristeza é passagem
Deixa passar.

É pra querer ser diferente, ser melhor, ser maior, ser o que quiser
O mundo já está tão cheio de resignados. Aprisionados
É pra pensar grande mesmo e acreditar sem medo
Só fracassa quem se entrega à própria infelicidade.

Tudo pode ser de outra maneira se a gente quiser
E fizer.

Pertences

Ando me sentindo uma estranha em casa. Quando percebo estou parada no meio de um cômodo, observando, reparando. Como se este não fosse meu. Então, sinto um aperto assim agudo, acho que no pé, como se correntes invisíveis dos móveis emanassem, e me enroscassem. Eu não precisava de nada disso. De tudo isso. Poderia viver só com uma mala, assim não pesaria tanto. Nem faria tanto pó. Talvez a rinite melhorasse. Mesmo quando me mudar para uma outra casa, quero a vazia. Um colchão assim jogado. A decoração seria o espaço. Espaço. Assim o peito seria mais leve? Talvez. Hoje me sinto tão sufocada. Amarrada. Já não sirvo aqui, em mim.

Véus

Acordo forte
Pego o celular: 5:55
Isso foi ontem
Acordo forte
Pego o celular: 5:55
Isso foi hoje.

Estou num cemitério antigo
Descalça
Sinto nojo disso
Como se algo penetrasse pelos pés
Chove forte
Sinto alívio
Como se a chuva viesse por baixo
Uso uma longa saia branca que se arrasta
Deixando rastros
Uma menina aparece
Ela não está viva
Eu paraliso
Ela se aproxima
Bem perto
Coloca a mão no meu peito e diz:
Toma. Agora é seu
Desaparece.

Acordo forte…

Pretérito Imperfeito

Trilha: Graveyard – Slow Motion Countdown

Ainda estou nesse metrô
Com os meus 20 anos
Indo pra algum lugar que nunca sei
Sempre perdida nessa cidade sem fim
São Paulo me é liberdade e exílio
Chegada e Partida
Qualquer coisa extrema e irreversível
Um ferro quente sobre a pele.

Ainda há esse nó na garganta
Esses olhos marejados
Esse peito rasgado
Meu ser invadido, exaltado
Desespero transbordado
Minhas fantasias urgentes
Vontade louca de dilacerar o mundo
São Paulo me parece o centro de tudo.

A minha estação chega
Ao sair esbarro em mim
E me vou.

Trovoa

Você precisa ser mais leve
Menos passional
Surtada. Surtada!
Você sufoca.
Não serve pra ser amiga.
Uma grossa. Faca na manteiga.
Dona da razão.
Precisa sempre vomitar suas verdades
Não pedi sua opinião. A vida é minha.
Um bom amigo só ouve
Um bom amigo alegra
Você derruba
Soterra
Fatídica!
Precisa levar tudo tão a sério
Criticar tudo. Debater tudo.
Você fala demais. Só dá sermão,
Arrogante.
Não serve pra ser amiga.
Não serve.
Você trovoa.
Eu quero um céu limpo
Você trovoa.
Não é chuva que acalma
É tempestade que estronda.
Você trovoa.
Afugenta.