Presos

Hoje aguardava ser atendida em um consultório, em uma típica sala de espera com um daqueles grande aquário. Os peixes eram pequenos, só havia um único peixe grande, não muito maior do que os outros, talvez maior de presença do que de tamanho. O peixão nadava interruptamente pelo aquário fazendo um mesmo caminho: nadava para a esquerda até trombar com o vidro,dava uma cambalhota e fazia o mesmo para a direita. Por alguns instantes se enjoava e fazia a direção contrária: nadava para a cima até a margem e depois para baixo até o chão. Não parava. Não parava. Já os outros peixes pairavam na água, quase sem se mexer, quase boiando. Quietos. Conformados. O meu incômodo foi tanto que pensei em ir embora antes de ser atendida. Que tipo de pessoa é essa que aprisiona peixes em um cubículo de vidro? Que tipo de pessoa é essa que não enxerga o desespero deste animal exilado? Confinado em centímetros. Olhar aquele aquário me angustiava, entristecia, enfurecia. Queria pegar o grande peixe com as mãos e soltá-lo. Queria gritar naquela sala: esse peixe está sofrendo! Isso é sadismo! Alienação! Colocar peixes em um cubículo de vidro para o bel-prazer é medieval! Como alguém em pleno 2016 ainda faz isso?! Diriam que sou louca, exagerada, abitolada. Porque todo mundo faz isso. É normal. É cultural. Eu já penso que ninguém se importe porque quase todos nós estamos iguais àqueles peixes: desesperados ou resignados. Presos em redomas invisíveis edificadas pelas próprias mãos, atados por realidades absurdas que a nossa sociedade estabelece como normal. E talvez, ter um ser inferior preso até nos conforte, fazendo nos sentir maior e mais livre.

Trovoa

Você precisa ser mais leve
Menos passional
Surtada. Surtada!
Você sufoca.
Não serve pra ser amiga.
Uma grossa. Faca na manteiga.
Dona da razão.
Precisa sempre vomitar suas verdades
Não pedi sua opinião. A vida é minha.
Um bom amigo só ouve
Um bom amigo alegra
Você derruba
Soterra
Fatídica!
Precisa levar tudo tão a sério
Criticar tudo. Debater tudo.
Você fala demais. Só dá sermão,
Arrogante.
Não serve pra ser amiga.
Não serve.
Você trovoa.
Eu quero um céu limpo
Você trovoa.
Não é chuva que acalma
É tempestade que estronda.
Você trovoa.
Afugenta.

28 de Julho

Hoje faz muito frio aqui. Isso deixa o corpo mole. Quieto. Ando lendo um livro sobre Raja yoga, fala muito sobre completude e afirmação. Ando querendo me desconstruir. Nos últimos anos atei-me à uma rotina metódica e sintética, privando-me do hoje para alcançar o amanhã. Julho sempre me alcança forte. Esse vento gélido é pesado, cortante. Concluo que o caminho só vale a pena se for para caminhar. Ao contrário, se caminhamos para chegar, secamos. Como atravessar um deserto em busca de um oásis. É desespero. Fuga. É muita coisa, mas não é momento. Não é vida. A fugacidade e fragilidade do tempo andam me cutucando os olhos. A mãe de um amigo faleceu ontem, há poucas semanas conversamos por telefone, ele com entusiasmo me contava seus planos de levar sua mãe para a cidade que se mudara. Tudo parece tão pequeno hoje. Insignificante. Um detalhe. O vento que move as árvores parece muito maior. Decidi fazer tudo diferente, para isso tive que interromper tudo que fazia, desocupar para ocupar. Vazio. Ando chorando muito, não de tristeza, mas de comoção. Uma percepção afiada, que rasga. Completude é sair de si para olhar para fora, estar de fora para olhar para si. Hoje eu me sinto sozinha num barco em mar aberto. Distante. Só minha. Sem âncoras. Toda superficialidade, vaidade, todo aquele continente limitado, isolado diante de si, para trás. Todas aquelas necessidades que não me pertencem, aqueles julgamentos que não me competem. Para trás.

Porta-retrato

Revelei fotos antigas de uma festa de aniversário perdida no tempo. Você abraçava o seu pai naturalmente, verdadeiramente. Havia uma alegria serena nos olhos do meu vó. Uma pureza naquela pele pálida e cansada. As fotos emolduradas empoleiradas na mesa a esperam chegar. Eu quis escrever um bilhete, tardei em fazer achando que poderia soar um tanto mórbido, mas agora que escrevi achei leve, como asas: Todos os dias você irá ver este porta-retrato, e gostaria que a lembrança do seu pai te lembrasse de como a vida é uma passagem. Os problemas, as dores, as alegrias, as pessoas quem amamos. Tudo passa, tudo é sopro, correnteza sem fim. Mas nos esquecemos disso a todo momento, e ao invés de navegarmos, afogamos-nos paralisados lamentando a terra firme que não chega, e nunca chegará. Em vez de aproveitarmos o tempo fugaz com aqueles que amamos, deixamos que pequenas diferenças e deslizes corroa este momento e o transforme em problema, quando poderia ser solução. E para que isso? Gostaria que você se perguntasse quando olhasse esta foto. Para quê isso? Se tudo, tudo, tudo passa. E não volta. Será que amanhã estaremos aqui? Até quando teremos uns aos outros? Nossa família, esse nosso ser continuado em outro alguém. Tudo torna-se muito pequeno pensando assim. Somos muito pequenos. Partículas carregadas pelo vento. Estamos indo a cada dia. Sumindo aos poucos. Desperdiçar a vida que resta é uma loucura. Quando penso no vó eu lembro disso, sinto vergonha de minhas entregas, e sinto força também. Força para fazer o melhor, viver o melhor, amar melhor. Amar enquanto ainda é tempo. Queria que esta foto lhe dissesse isso.

Durga

Tenho Durga como escudo
Arquétipo de força
Egrégora de proteção
Espírito de fogo.
Meus deuses são internos
Vivem nos olhos
Escorrem pelo sangue
Soltam libido na pele
Sinto Durga nas unhas
No arrepio da espinha
Na fúria de persistir
Na segurança de abstrair
Na certeza que sou maior
E nada pode me atingir
E nada pode me atingir
Eu sou Durga.

Um animal objeto cabe em qualquer lugar

Maurício morava em um bairro isolado de Araraquara-SP com a esposa e o filho pequeno. Resolveu arrumar um cachorro para proteger a casa. Quando o seu segundo filho nasceu, Maurício decidiu se mudar para um lugar melhor e comprou um apartamento próximo ao centro. Agora sim, segurança garantida para a família. Não precisariam mais do cão de guarda. E nem haveria lugar para este em um apartamento. Em nenhum momento isso foi um empecilho para a mudança. Não poder levar o cachorro é uma triste fatalidade, não uma vontade. Agora será preciso se livrar do animal, não há outro jeito. Uma dor de cabeça a mais na mudança.

O pai de Maurício tem um imóvel que aluga para eventos, o local quase sempre está vazio, sem ninguém. Pronto, problema resolvido. O cachorro poderia fica lá, mas preso. P-r-e-s-o. Há um quintal enorme, mas ele deve ficar preso no corredor dos fundos para não fazer sujeira. Esta é a condição. Pronto, cachorro resolvido.

Além deste cão ter sido removido de sua família e abandonado em uma casa vazia, ele é mantido encarcerado em um corredor. Não vê a rua, não se exercita, não tem sombra para se proteger na horas do sol escaldante, não tem abrigo para se acolher no frio da noite ou durante tempestades. Se quer uma casinha foi deixada. Maurício alega que está cuidando do cachorro, pois vai duas vezes por dia no lugar levar água e comida. Cuidar de um animal em sua concepção é mantê-lo vivo à base de água e ração. O cão agonizando confinado naquele cubículo não conta. O cão abandonado, longe dos donos e sozinho, também não.

Maurício, manter um animal encarcerado é tortura. É maus-tratos. É crime. Você é um criminoso Maurício. Mas ninguém enxerga isso. Porque é só um cachorro abandonado. Só um animal. Ainda hão de dizer que está fazendo o bem por não ter o largado na rua como tanta gente faz. Porque para essa humanidade desumana um animal é um objeto que come, urina e caga. Basta o colocar em qualquer lugar que o caiba, dar comida, água e limpar aquela sujeira. Dever cumprido.

Como Eles se Tornam Monstros

No último sábado, dia 21 de maio, dia em que a jovem do RJ sofreu o estupro coletivo por mais de 30 homens que chocou o país, outra atrocidade do cunho foi registrada: uma menina de 17 anos também foi dopada e estuprada por cinco homens no interior do Piauí. Foi encontrada desacordada e amordaçada com sua própria calcinha em uma obra abandonada. E quantos outros casos não divulgado ocorreram neste dia, em um país onde um estupro é notificado a cada 11 minutos?

Crimes de estupro coletivo envolvendo quatro, cinco homens já não são novidade, infelizmente, e por isso não chocam tanto. Já 30 homens envolvidos não é notícia usual no Brasil, diferente do que procede em outros países de maior problematização social, como a Índia e a referência África do Sul, país com o maior índice de estupro mundial. Só que a atrocidade brasileira não ocorreu em qualquer lugar, mas sim no violento Morro do Barão, comunidade da zona Oeste do RJ, local consumido pelo tráfico e a guerra cível tão constante entre traficantes e policiais. Há toda uma conjuntura nesta comunidade que a aproxima aos tão deturpados cenários sócias da Índia ou da África. Na África, por exemplo, o estupro coletivo em muitos países é um ataque de guerra. Coisa normal. Enraizada. Importante ponderar que essas comunidades do RJ vivem em uma literal guerra, e a flagelação social proveniente desta é imensurável. Estes locais possuem leis e justiça própria, as quais são embasadas em total selvageria. Dívida de droga é resolvida não só com morte, mas com cruel tortura para que sirva de exemplo. Crianças já são envolvidas com o tráfico e antes mesmo de entrar na puberdade já manejam armas. Um revólver nesta realidade é objeto comum. O pai tem, o irmão tem, tiros diariamente, mortes diariamente. A violência afinal se torna um lugar-comum. A resultante disso é um fatal processo de desumanização e animalização.

Novembro do ano passado foi detido no interior do Macapá uma agricultor acusado de estuprar suas cinco filhas, de 5, 6, 10, 12 e 14 anos. Quando foi preso ele confessou o crime dizendo: “Era rapidinho, não fazia mal não, era rapidinho”. Na cabeça deste homem o abuso sexual de suas filhas era normal. Se estava com vontade de sexo e se tinham 5 meninas em casa, qual o problema? No exato contexto em que um animal não distingue laço sanguíneo na hora do coito. A racionalidade é sucumbida pelo extinto devido à uma inexistência de moralidades e valores. Neste caso do Macapá, é muito provável que esse agressor também tenha sido abusado sexualmente em sua infância, havendo assim a normalização do abuso, mesmo que em níveis inconscientes. A civilidade se limita no convívio, não apenas na localidade. Concepções de certo ou errado são estruturadas em sumo pelo meio, seja este uma família ou uma comunidade. Um individuo que cresceu em um ambiente violente, dificilmente não acarretará esta violência para dentro de si, pois esta é o seu parâmetro, o dito lugar-comum.

A desigualdade social está totalmente vinculada à cultura do estupro. O abuso sexual pode não ocorre apenas em zonas periféricas, mas a grande maioria ocorre. Analisando toda a estrutura e funcionamento das comunidades do RJ isso se torna lógico. A própria perpetuação da pobreza entra como elemento chave. A diretora da Fundação Casa, Berenice Gianella, em entrevista para a revista Brasileiros expõe como a miséria e as estreitas possibilidades de melhoria sentenciam à marginalização social: “O menino sai daqui e volta para a comunidade que ele morava, com o pai preso, a mãe presa… Nós tivemos um caso nessa semana em que o menino estava no regime de semiliberdade e pediu ao diretor da unidade para voltar para a unidade sábado à noite. O diretor perguntou: “Mas por que você quer voltar hoje?” E o menino respondeu: “É que na minha casa não tem cama para dormir e aqui tem”. A equipe da unidade foi fazer uma visita e viu que a mãe mora numa casa com quatro camas para dez pessoas. Eles dormem em revezamento nas camas. O menino foi visitar a família no sábado e voltou à noite para dormir na cama da Fundação. É um jovem internado por tráfico de drogas. Por que será que ele entrou no crime? Será que esse jovem, por melhor que a gente atenda, não vai voltar a praticar delinquências?”

O tráfico nestas comunidades acabou se tornando meio de sobrevivência em um país onde o salário mínimo não supri as necessidades básicas de um indivíduo. A ilegalidade da prática pede força bélica. A luta pelo poder local demanda alta violência. Inevitavelmente, as mulheres são vitimadas por esta violência. Difícil colocar limites quando se tem uma arma na mão. Não é a toa que a jovem da atual barbárie do RJ narrou ter acordado em uma sala com mais de 30 homens portando fuzis.

As soluções não são simples perante tantas complexidades causais. Na priori, nosso país possui uma carência exorbitante de serviços públicos eficazes e de políticas sociais que atendam à população mais necessitada, medidas vitais para uma melhoria social. Pois degradação social sempre resulta em violência. A tragédia do Morro do Barão sintetiza isso. A humanidade de muitos já perdemos, resta lutar por mudanças para salvar os que virão.

Ventríloquo

Gostava de sentir vontade de ir ao banheiro. Segurava ao máximo. Quase fazia nas calças. Mas era aquela sensação de alívio que buscava. Algo saindo, libertando, tranquilizando. Momento raro.

Também tinha suas manias de organização. Precisava de algum controle. Algum pequeno domínio no meio de sua desordem infinita.

Mudava a cor dos cabelos toda semana. Quem sabe mudando por fora, também conseguia mudar por dentro.

Comia muito para se encher. Preencher aquele vazio que ecoa. Ecoa. Ecoa…

Bebia muito para se esquecer. Só conseguir se divertir quando já não se sentia.

Principalmente, tinha uma total possessão com seus relacionamentos. Precisava de muita atenção, exclusividade. Não conseguia cuidar então precisava que alguém cuidasse. Aliviasse. Preenchesse.
Tudo que precisava era um sentido para a vida que já não conseguia justificar.

Auto-terapia

Soundtrack: It Moves Through All Things (The Living Sleep)

Sou uma pessoa extremamente nervosa, ansiosa, preocupada, estressada, inquieta. Redundante tal descrição. Sou perturbada em síntese. Como se houvesse uma sirene dentro de mim. Um alarme. Algo está errado. Urgentemente errado. E não, não é uma fase, um dia sobrecarregado, uma semana ruim. Sou assim desde que me conheço por mim. Na infância eu era “a criança difícil”, que só chorava, gritava, confrontava. Desde que nasci assim já era, meu pai conta que era impossível não me reconhecer no berçário, pois eu era o único bebê que só chorava, interruptamente chorava e berrava.

Nenhuma característica é totalmente ruim ou boa, mas sim uma dupla face, dependendo da situação e do ponto de vista. É claro que toda esta inquietação me beneficia em muitos aspectos, e me soterra em tantos outros. Logo aos 8 anos comecei a desenvolver gastrite nervosa. Os pediatras me tratavam com remédio para verminose pois achavam muito difícil uma criança desenvolver gastrite. A dor era tanta que, quando tinha uma crise na escola, eu precisava deitar no chão do banheiro para suportar. Depois veio a dermatite alérgica, psicossomática também, bolhas que surgiam em todo o corpo e queimavam, coçando insanamente, formando feridas que mais pareciam queimaduras. Mas nada se compara às crises de enxaqueca. Nada. É lógico que nesta mesma época, aos terríveis 8 anos, período que também vivia um agudo quadro familiar, graves distúrbios mentais vieram. Síndrome do pânico e o tão cruel TOC (Transtorno Compulsivo Obsessivo) o qual levou, consequentemente, à psicose. Lembro de algum médico ou psicólogo dizendo à minha mãe que se naquela idade eu tinha desenvolvido tais distúrbios, que com grande certeza estes me acompanhariam para o resto da vida. Talvez em partes isso seja verdade. Pois cada dia é uma luta. Mas, para quem não é?

Toda a minha adolescência se resumiu em um longo processo de  recuperação de uma infância traumatizada e suas algemas. Definitivamente foi a arte que me salvou, como ainda me salva. Mais especificamente aos 14 anos, quando comecei a dar aulas de dança em ONGs de assistência social. Isso foi uma ponte. Um choque de realidade transformador. Não, eu não tinha problema. Aquelas crianças e adolescentes sim, eu não. Foi uma tamanha cura as experiências que tive trabalhando com estes jovens tão carentes, como sentar-me com um deles, ouvir um desabafo e chorar junto, aos soluços, sem ter muito o que dizer ou precisar dizer. Porque às vezes palavras são inúteis. Porque aquela dor era também minha.

Permaneci trabalhando no meio social até aos 20 anos. Acredito que esta densa experiência durante grande parte da minha adolescência me lapidara totalmente. Isso fez despertar uma humanidade muito forte em mim. Humanidade mesmo, no sentido que a palavra se propõe a significar: compaixão, empatia, altruísmo, afeto.

O episódio mais forte desta época foi aos 17 anos, quando sai de casa. Isso foi o divisor de águas. Foi o que afundou e ressuscitou tudo. Logo depois, aos 18 anos, fui para Inglaterra trabalhar de babá. Mas acabei na Espanha. Deu tudo errado, e tudo milagrosamente certo. Foi então que descobri como linhas tortas nos direcionam. E transformam. Aos 20 anos fui para São Paulo. E novamente, tudo desabou. Muito mais do que isso. Meu eu, minha personalidade, minha alma. Tudo morreu de muitas maneiras para renascer de tantas outras. São Paulo foi a metamorfose, a passagem. Anos vorazes. Difícil falar de São Paulo sem me emocionar. Difícil. Mas as mudanças na selva de concreto não foram suficientes. Teve que vir o acidente de carro. Aquela linha da vida cortada na palma de minha mão. Aquele estigma. Literal renascimento. Encarar a morte nos faz descobrir a urgência de viver. Sagaz ironia. Depois houve o limbo de 1 ano de volta à Araraquara. Reconstituição. E houve por fim outro recomeço em Curitiba. Redenção. Mas sinto que só há pouquíssimo tempo descobri, que o recomeço precisaria ser diário.

Acho que minhas feridas foram tantas, que a necrose foi inevitável. Tive que me desfazer para poder me recriar incontáveis vezes nestes quase 28 anos. E quantas vezes mais será preciso? Todos os dias sinto que partes apodrecidas me restam, sempre restarão, é preciso de muita força para arrancá-las, com as próprias mãos, para se despir do que não mais serve e atrofia. O mais difícil, obviamente, é o turbilhão que me habita. Esse grito que não silencia. Esses desespero que não se acalma. Essa memória que queima. Mas eu não vou desistir. Não vou me entregar. Todo dia é um novo desafio, uma nova  necessidade de superação. São coisas pequenas as grandiosas, as que aliviam e curam. Minha música, meu desabafo escrito com tantas lágrimas exorcizadas, relaxamentos diários ao som de algum CD clichê de meditação. Essa busca incessante pela paz. Essa persistência inabalável pela evolução. Esta auto-terapia sem fim.

Lateja

Tem alguém atrás de mim gritando
Tem a minha voz esse grito
Peço para ir embora
Não consigo – diz
Peço para ficar quieto
Não consigo.
Minha cabeça dói muito
Deve ser por causa desses berros!
Te escuro, te ignoro
Mas você só grita
Um silêncio que não alcanço
Uma paz que não habito
Minhas veias estouradas
Minha vida sangrada
Lateja.