Os Espinhos de Rosa

Rosa é uma menina de 10 anos com sorriso doce e olhos desesperados. É a sua segunda passagem pela unidade de acolhimento municipal. Ela não é órfã, como a maioria das crianças em um orfanato, ao contrário do que se imagina. Seus pais perderam temporariamente a sua tutela devido à suspeitas de maus-tratos. Uma história indigesta de abusos sexuais do pai e agressões físicas da mãe. Rosa também foi diagnosticada com esquizofrenia. A usual necessidade de transformar o sofrimento em patologia. Os espinhos de Rosa a perfuram, mas ninguém vê, porque sangra para dentro, só transborda para fora, e assim, a sua dor vira incontinência, anormalidade; qualquer coisa líquida e derramada; uma poça no meio do caminho, que precisa ser desviada.

Nenhum abrigo quer crianças com “problemas psiquiátricos”, termo técnico para os pequenos fora da curva. Já é difícil cuidar de criança normal, o que dirá das mentalmente enfermas. Mas não há orfanatos para crianças com transtornos mentais. Felizmente. As unidades municipais são as que acabam recebendo a bomba, e gravemente são as instituições mais carentes de profissionais e recursos. Sem psicólogos ou equipe especializada, Rosa é tratada como um fardo. A menina realmente não é fácil, em suas primeiras semanas no lar o SAMU era diariamente acionado para ir contê-la, de tamanho que era o seu descontrole.  Os espinhos de Rosa também esfolam o seu redor. Surtos de violência contra as crianças menores fazem parte da sua rotina. Rosa propaga o que consome. O abrigo vira uma guerra. As meninas maiores passam a defender as menores batendo em Rosa. A equipe dá os ombros. As surras não intimidam Rosa, já tão acostumada. E assim, a pequena cada vez mais vai se fechando em seu mundo interno, desprendendo-se do externo.  A inocência de seu sorrido vai cedendo lugar à amargura, o desespero de seus olhos à apatia. As pétalas a cada dia murcham. Os espinhos endurecem.

 

The Smashing Pumpkins – Stumbleine

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Sem Lugar

Você estava com uma menina em um camarim. Era uma noite cultural na cidade, muita gente na rua, música em todo lugar. Eu não sabia direito o que estava acontecendo, tinha acabado de chegar àquela cidade. Eu te observava de longe, você não me enxergava, como há tempos não me enxerga. Eu sentia ciúmes da menina ao seu lado, era cantora e se preparava para se apresentar. Você parecia muito orgulhoso dela, feliz ao seu lado. Eu me sentia traída, como se aquele fosse o meu lugar. Naquele momento, eu me encontrava escondida em um quarto escuro e cheio de tralha antiga de palco. Vocês estavam no camarim à frente, iluminado, limpo, alegre. De repente eu me esbarro em um amontoado de holofotes e o som de vidro espatifado ensurdece o ambiente.  Vocês dois se assustam e se dirigem ao quarto onde me encontro. E sou descoberta. Eu assustada, cortada, envergonhada, saio correndo. Vocês me seguem. Já estou na rua quando sinto a sua mão brusca no meu ombro. Eu me viro e vejo você, ao lado dela, segurando uma grande mala de viagem, vazia e detonada. A mala é minha. Você hostilmente a joga em minha direção e se vai. Eu fico ali por um tempo, no meio daquela multidão, anônima, sentada na calçada ao lado de uma mala grande, vazia e rasgada. Um mendigo. Sem lugar. Mas não estou triste, se quer com raiva, mas sim aliviada, por finalmente compreender que você, não é o meu lugar.

 

Carry Home – Mark Lanegan

Garoa

Eu tinha acabado de comprar o meu carro. Meu primeiro carro. Havia tirado carta há anos e não sabia dirigir direito. Esse foi o primeiro problema. Eu morava em São Paulo há pouco tempo e não conhecia a cidade direito. Esse foi o segundo problema. Em uma das minhas primeiras aventuras dirigindo pelas ruas intermináveis daquela cidade, uma amiga estava comigo. Ela se mudou para São Paulo comigo. De certa forma, ela se mudou para São Paulo por mim. Fui eu quem a arrastei àquelas ruas imundas e infinitas, as quais a gente nunca sabe direito pra onde vai e nem como volta, ou se volta. Nesse dia, que era noite, fomos à Pizza Hut da Marginal. Eu me perdi tanto, mas tanto, que a noite já se tornava dia. E era uma ordinária quarta-feira que se perdia na madrugada paulistana, tornando aquela cidade quase irreconhecível no meio daquele silêncio e anonimato. Entorpecida pelo cenário e pelas nossas risadas intermináveis, eu gritei: “A cidade é nossa! Só tem a gente aqui! Estou te dando essa cidade! Mais uma vez.” E foi assim que essa música, “Drizzel” nasceu.

Hoje bateu uma saudade muito forte de tudo isso; dessa amiga, dessa juventude e principalmente dessas ruas errantes de São Paulo, onde eu tanto me perdi e me encontrei.

Drizzle – Aline Castanhari

Possibilidades

O que não depende de mim

Eu especulo você. Como um desejo qualquer. Analiso as possibilidades. Sonho alto. Faço cena. Monto um roteiro. Transformo você em personagem. Aí dou um riso nervoso. Achando graça, achando ridículo, achando doído. Aí relaxo, pesando que mal não faz não. Só tô especulando. Imaginando. Averiguando as possibilidades daquilo que não depende de mim. Como quem vai viajar pra um lugar novo e fica assim, imaginando, idealizando como gostaria que fosse. Eu costumo crucificar esta palavra, idealização, quando abordo circunstâncias que não cabem a mim. Assim, eu me crucifico muitíssimo idealizando você. Essa é uma parte de mim. Há a outra parte, aquela que diz que essa reprovação é pura vaidade. Uma necessidade de controle. Um medo de rejeição. Aí eu me acalmo, lembrando que toda conquista é um encontro, acima de tudo. Porque nada depende só da gente. Algumas coisas dependem mais, outras menos, mas tudo no final é coesão; encontro de forças que convergem ou divergem.

Eu fico aqui imaginando como você deve estar hoje, depois de quase uma década. Acredito que esteja melhor, assim como acredito que eu esteja. Então especulo: será que nós, hoje, juntos, não seríamos melhores? Melhores do que fomos. E se fomos felizes outrora, num período tão juvenil e instável, o que dirá de agora? Poderíamos ser tanto. Poderíamos. Eu especulo. É ai que crio esse teatro dentro de mim. É ai que te projeto. E uma mistura de repreensão com inspiração me invade. É intuição? É ilusão? O que você significa, hoje, dentro de mim?

Eu não sei direito o que você pensa. Você, tão fechado. Mas vou acabar sabendo, naturalmente, se não na sua voz, na voz do tempo. Porque se não for encontro, será ausência. E  pensando assim me sinto leve. Talvez a gente não tenha mais nada a ver. Talvez eu nunca mais te verei de novo, mesmo morando no mesmo país, na mesma cidade que você; porque o seu caminho pode não pertencer mais ao meu. Como afinal há tanto tempo não pertence. Estar me mudando para perto de você, a maior paixão que já tive, é inevitavelmente atormentador. É por isso que faço tanta cena e alimento tanta idealização. Mas, ainda assim, é leve, como tudo aquilo que não está em minhas mãos; como expectativas jogadas ao vento.

Eu fico aqui imaginando que historia bonita não seria essa, da gente se encontrando depois de tanto tempo, em outro país, em outros corpos, em outra dimensão. Uma possibilidade, apenas. Entre tantas outras.

 

Letting The Cables Sleep – Bush

 

Frio

Você ainda vai ficar sozinha menina. Por esse seu jeito, nesse seu rumo.
Sem amigos, sem família, sem companheiro. Vai passar dias e dias ao som da própria voz.
Vai saber o que é chorar de solidão, não por sentir-se sozinha, mas por estar só.
Sem ninguém pra contar. Só. Como a gente nunca imagina um dia estar.
Nem se quer contatos virtuais. Nem colegas formais. Ninguém.
Uma solidão que não é sensação, mas constatação. Condição.
Esse dia tardou, tardou, mas com tudo chegou.
É que antes você vivia disfarçando esse buraco com os seus romances. Um atrás do outro.
Até que cansou. Arriscando que a solidão afinal seria mais autêntica.
Não imaginava esse aperto. Essa asfixia.
Cada palavra não diga que desce esfolando a garganta, machucando o peito.
Cada imagem sua detida no espelho.
Você tinha que descobrir que precisamos de outros olhos para nos refletir.
O frio chega forte em julho
Aos poucos se acostuma.

 

Creep – Stone Temple Pilots

Maneira

Há tempos li um trecho que muito me marcou, talvez de Luft, já não me lembro, que dizia: “Era tão bom estar com ela, porque era leve, e era leve que eu me sentia”. Uma menina falando de sua avó. Disso eu me lembro. Achei tão profundo isso. Por ser raro. Tão raro encontrar essa sensação ao lado de alguém. E é isso que hoje a concepção de bem-estar me arremete: leveza. E eu me aproprio desta definição exatamente ao me lembrar de minha vó; de quando eu era criança e a minha companhia favorita era ela. Lembro-me fortemente de nós duas sentadas no chão de taco de sua casa brincando de “casinha”, e o que me trás essa lembrança é a sensação única que eu sentia: formigamento. Meu corpo todo formigava, como uma perna dormente que já não se sente, que já não pesa. Eu parecia flutuar. Depois que cresci, eu só consegui presenciar esta sensação novamente meditando, em poucas vezes. Nunca mais senti isso através de outro alguém, de outra presença. Essa segurança, esse aconchego, essa leveza. Na verdade, a minha avó sempre fora a precursora de meus sentimentos. Foi com ela, e para ela, que eu disse o meu primeiro e quase único “eu te amo”. Foi com ela, e só com ela, que eu já muito crescida chorei largada em seus braços, naquela cena bem clichê, mas que parece só existir em livros e filmes; ela ali, sentada na cama, abraçando-me, e eu chorando aos soluços aquele tipo de choro que não se deve chorar diante de alguém, porque assusta, porque a gente vê alguém chorando assim e fica sem saber o que fazer ou dizer. Mas ela sabia, sabia que tudo que eu precisava era daqueles braços em volta de mim, segurando-me.

Quando li aquele trecho sobre a leveza, eu imediatamente pensei: eu sou leve? Porque antes de querer que assim me sejam, eu preciso assim ser. Sem dúvidas respondi: não. Acho que sou tudo, menos leve. Mas eu quero ser. Urgentemente quero. Importante frisar que leveza não é a falta de problemas, mas a maneira de se lidar com eles. Lembrei agora de outra cena. Eu estava na longa fila da Caixa Econômica Federal para sacar o fundo de garantia, na minha frente havia uma família: pai, mãe e o filhinho que devia ter uns 8 anos. O pai em certo momento disse ao menino: – E essas unhas aí hein guri? Que coisa feia! Olha como estão sujas! – Mas precisa falar alto pai?! – Precisa sim! Porco! Poooorco! Senhoras e Senhores aqui tem um poooorco! – O pai já falava rindo, e o menino também muito ria, assim como a mãe. Eu também sorria, fascinada em como aquele sermão se transformava em diversão; em leveza.

Hoje, mais do que nunca, eu quero ser uma pessoa melhor; melhor para mim e para os meus. E quando penso em uma maneira para conseguir alcançar isso, é, sem dúvidas, essa leveza que me guia.

 

I just wanted to make you something beautiful – Industries of the Blind

2: Ir

Confesso que estou com medo do clima. E da língua. E da solidão também.

Confesso que não sei mais fazer mala só de ida. Estou acostumada com a segurança de caixas grandes de mudança, daquelas montáveis que cabem muita coisa, qualquer coisa, a vida toda parece caber ali, embrulhada em papel bolha, com toda a sua fragilidade protegida.

Digito no Google: Como se vestir na neve. Rio de mim mesma. Quanta ansiedade. Digito no Google: Montreal em dezembro. E sinto medo. Um tipo específico de medo. Desolamento. Como quando criança, quando entrava em um lugar desconhecido e, metida como era, saia correndo na frente de todo mundo, até me sentir perdida em um mar de rostos. Aí eu sentava e começava a chorar, tão forte que rapidamente meus pais me encontravam. Mas e agora, quando me sentir perdida em um imensidão branca e desconhecida? Ontem mesmo li algo parecido em um livro de Caio F. Abreu: “Não posso sentir medo. Repetia. Não posso. Porque só tenho a mim.” Medo é chamado.

Coragem. O que é coragem? É defesa? É ímpeto? Neste meu caso, talvez seja buscar o que se quer e reconhecer o que se tem. Porque toda possibilidade é uma dependência de esforços com oportunidades. É pensando assim que surge uma luz que me acalma. Uma visão. Pergunto-me: como eu gostaria de me lembrar daqui a um tempo, em um futuro distante? Gosto de analisar assim. Vou sentir orgulho de mim? Vou me arrepender? Vou dizer: como eu era louca meu deus! Eai, o que vou me dizer? O que hoje digo para a menina que fui? Eu mudaria qual parte do passado, se eu pudesse? Porque você sabe, a vida vai em círculos.

Vai. Uma voz me diz. Talvez vinda do futuro. Talvez um eco do passado. Vai. Esse medo é guia, como um cego que tateia a escuridão, descobrindo os contornos, traçando um caminho. Indo.

 

O Velho e o Moço – Los Hermanos

Contratos

Suspeito que antes de começar, deveríamos fazer contratos. Para acabar com essa imposição subentendida de eternidade. Suspeito que é isso que desgasta, ilude, sufoca. Vamos ponderar um tempo assim cabível, contável, possível. Mas isso soa ridículo. Sim, soa. Mas ainda menos ridículo do que essa cobrança insustentável por continuação. Você me diz que não, que quando a gente ama o tempo não existe. E assim queremos acreditar no para sempre. Acho bonito isso, mas do lado de cá, no papel. Vivendo nunca é tão linear. Por isso eu te sugiro, vamos fazer contratos diários. Soa mais saudável. Porque arrisco que seja essa nossa mania absurda de querer controlar o tempo, principalmente o alheio, que nos esgote. Essa distorção de achar que amor só é amor se for inabalável, interminável. Como a ficção mostra. Já na realidade, é essa demanda por perfeição que deforma. Essa possessão por constância. Tão incoerente. Porque a única certeza é a mudança. Por isso promessas já não me soam românticas. Mas claustrofóbicas. Vamos combinar de ser feliz por hoje, por esta semana, até o fim do mês, se der. E depois a gente vai adaptando, transformando. Renovando. E quem sabe assim, preocupados com o trajeto e não com o final, a gente não caminhe por mais tempo. Sem nos cansar. Suspeito que só sendo livres é que conseguiremos nos manter atados. Quem sabe.

 

Sleeping with the Ghosts – Placebo

1: Ciclos

Este é o meu quarto ano em Curitiba. Surge aquela sensação anacrônica de tempo: parece que faz uma vida que moro aqui, mas ao mesmo tempo parece que cheguei semana passada. É bem assustador pensar que estou há quase 4 anos aqui. Quando a gente tenta supor um tempo assim, quase meia década, isso parece tão longo. Mas não é. Passa assim, num estalo. Em São Paulo igualmente fiquei quase 4 anos, três e meio para ser mais exata. Segundo a minha mãe foram 5, ela sempre diz. É que aconteceu coisa demais, explico, aí parece que foi tempo demais. Não, você deve estar se confundindo! – ela rebate – Impossível ter sido só três anos. A gente tenta contabilizar o tempo, mas não dá não. É relativo demais. Fugas o bastante.

Mais uma vez me preparo para deixar uma cidade, uma vida, e um confronto absurdo de sentimentos já me atinge. Já sinto saudade, já sinto medo, já sinto alívio. Eu não imaginava que seria tão cedo. Curitiba eu estabeleci como passagem, nunca pretendi permanecer aqui por muito tempo, mas ainda assim pensava que ficaria um pouco mais. Então, mais do que tudo, estou naquele susto, digerindo uma mudança tão abruta que já começo a vivenciar. Mais uma. Gosto de pensar que me encontro mais preparada para tal travessia, mas sei que não. É sempre tão, tão, difícil, e isso já sei de cor. Mas hoje é sim um pouquinho diferente, pois tenho diferentes necessidades do que antes, e assim, diferentes prioridades. Por exemplo quando estava me mudando para cá, eu tive uma pira grande de querer comprar móveis antigos, e não só isso: coleção de filmes, livros de capa dura, vinis e varias bugigangas nomeadas de enfeites. E hoje o que mais quero é me desfazer de todos os meus pertences! O que dirá quando fui para São Paulo, fiz questão de pintar e decorar toda a minha casa, até o teto (literalmente), para que ficasse a minha cara. Hoje isso me parece a coisa mais insignificante do mundo. Fases. Etapas. Agora também já sei lidar um pouco melhor comigo. Eu costumo estabelecer um ideal forte de perfeição na minha vida, em tudo. Espero demais, quero demais, aposto demais. Não me repreendo por esse exagero, isso é muito ruim por um lado, mas muito bom por outro, assim como tudo. A diferença é que hoje carrego uma serenidade que suporta o meu desespero. Já sei que um recomeço é antes de tudo um parto, com sua dor, seu estranhamento, sua enorme fragilidade. E ao mesmo tempo que sou a mãe que pari e cuida, sou a criança que se inicia.

Conversando agora com a minha mãe sobre a mudança, ela também disse: “Quando você foi para Curitiba você não tinha foco, agora pelo menos é diferente.” É curiosa esta definição subjetiva de foco. Minha mãe diz isso por eu ter vindo para Curitiba sem “nada”; ao contrário do tudo que costuma reger uma mudança de cidade para a maioria: emprego, faculdade, casamento… Não, não foi um fator externo que me trouxe aqui, mas interno. Eu me trouxe aqui. E isso é “falta de foco”. Meteu o loko, dizem. Foi pro outro lado do país sem nada e sem ninguém. Que loucura! Coitada da minha mãe, minha irmã sempre contava como ela ficava sem graça ao tentar explicar o porquê de eu ter ido para Curitiba, ou para São Paulo. Agora ela me olha esperançosa, quase suplicando: não perca o foco! Logo eu que carrego todos os sonhos do mundo. Talvez este seja o problema, querer tanto e assim não me fixar em um só ponto, em um só lugar.

Estou ansiosa para doar todos os meus pertences. Soa tão poético isso: “Doa-se todos os meus pertences”. Vou vender o meu carro. Entregar a minha casa. Ir sem nada. Hoje eu sinto um peso tão grande nas costas, ou talvez seja na sola dos pés. Uma raiz que me puxa pra baixo. Eu consigo imaginar o alívio de colocar a vida numa mala, um violão nas costas e ir. Assim, leve. Porque só os olhos já pesam demais. Nas minhas últimas mudanças eu arrastei uma casa junto. Isso tirou todo o barato. Pra ser andarilho tem que ter o estilo. É você, a estrada e mais nada. Sabe, envelhecer inevitavelmente endurece. Eu não sei se é amargura ou se faz parte do ciclo da vida, assim como em troncos de árvores. Mas para o humano isso costuma fazer muito mais mal do que bem. Porque vira sinônimo de aspereza. Defesa. Um jeito metódico de ser, de querer. Lembra quando éramos adolescentes e pensávamos que podíamos tudo? O que aconteceu com aquilo? Agora temos 30 anos e precisamos de concretude. Precisamos? Eu não quero precisar. A dureza dos meus olhos pede leveza. Alívio. Um vento no rosto, janela de estrada. Partir é preciso. Principalmente de mim.

And yet I find
And yet I find
Repeating in my head
If I can’t be my own
I’d feel better dead.

Nutshell – Alice In Chains

Ser Água

Não quero ser amarga. Digo-me. Porque muitas vezes sou. Mas ando repetindo como um mantra. Não quero ser amarga. Quando me machuco, quando me engano, quando me perco. Amargura é tristeza aprisionada. Feita de escudo. Quero ser água. Diluir. Fluir. Sem medo da próxima queda. Quero ser cachoeira. Saltar. Libertar. Não vou deixar a vida me aprisionar. Nem a dor me endurecer. Por isso repito. Quero ser água. Correnteza. Fluxo que nenhuma rocha detém. E que nenhuma rocha precise esmagar para continuar. Basta escorrer. Verter. E não guardar, pesar, afundar.  Mas transbordar. Perdoar. Transcender. Ser maior. Ser além. Até renascer oceano.